domingo, 8 de abril de 2018

Um lugar para morrer


Brasil.
Imenso, lindo, rico...
Pobre Brasil.
Meu amado Brasil.
Que desalento.

Era uma vez um país.
Foi-se.
Acabou.

Não há escolha plausível entre uma esquerda populista e corrupta e uma direita voltada para os interesses das classes mais favorecidas e... corrupta.
Não há possibilidade de uma vida digna em um Estado no qual todas as instituições faliram.
Não há estrutura governamental séria.
Não há Executivo em prol da Nação: há execução de contratos que, como bem dizia Chico, continuam a “subtrair a pátria-mãe tão distraída em tenebrosas transações”.
Não há Legislativo voltado à aprovação de leis que beneficiem o povo: há a incessante abertura de brechas legais para viabilizar a medonha exploração das riquezas naturais e do povo escravo.
Não há Judiciário idôneo: a balança pende para o lado que paga melhor.
Os Três Poderes (e tudo o mais) estão subjugados ao único poder vigente: o econômico.
Não temos nada melhor do que o capitalismo.
Não temos nada melhor do que a democracia.
E, aqui, ambos falharam.
Não há sistema milagroso que funcione, enquanto o valor primordial que impulsionar toda e qualquer ação for a ganância.
Não há jornalismo competente: a mídia, além de igualmente corrupta, perdeu o profissionalismo.
Todas as informações são manipuladas: não há dados confiáveis sobre os quais se apoiar.   
E o povo? Não há capacidade de análise crítica.
E a turba segue delirante de norte a sul, defendendo seus ídolos de barro (de esquerda, de direita, de centro, não importa), sedenta por justiça e completamente cega, digladiando-se em meio à estúpida (e conveniente) polarização, caminhando direto para o seu cadafalso.
Nada de novo. A novela se repete desde sempre.
O único sentimento coerente ao se constatar que a esperança na “liderança a favor dos pobres” consistiu, na verdade, em uma das maiores decepções dos últimos anos é a vergonha. É patético festejar a prisão de um ex-presidente, quando o sentimento mais coerente seria o de vergonha.
É patético festejar a queda do ruim a favor da manutenção do pior. 
Quanto aos poucos lúcidos que restaram, não há mais grito para a indignação. 
Perdeu-se a voz e a vez. 
Mais funesto que o cenário atual talvez tenha sido apenas aquele dos tempos da ditadura.
Em poucos meses, os trabalhadores perderam suas garantias, direitos trabalhistas conseguidos a duras penas; estão para perder também a possibilidade de uma aposentadoria mínima, sob o pretexto de um rombo previdenciário extremamente questionável. Educação (educação pra quê?), saúde e segurança caminham a passos largos para a sua completa ruína. Empresas nacionais absolutamente rentáveis estão sendo entregues de mão beijada... para quem? Os números adulterados da inflação e um dos maiores arrochos salariais da história brasileira passam batidos: o circo está montado e a fantasia em que mergulhamos é a de que "basta" prender os corruptos! O combate à corrupção é naturalmente louvável. Mas isso não justifica a posição de ater-se apenas à ponta do iceberg e contentar-se com o "Viva! Finalmente, estamos prendendo os corruptos!", às custas de, nos bastidores, as próximas gerações serem condenadas ao retrocesso por darmos ingenuamente o poder a quem sub-repticiamente voltará a explorar vertiginosamente os menos favorecidos - esse é o verdadeiro "golpe" -, a quem sem o menor escrúpulo está colocando o Brasil, completamente sucateado,  na "OLX": a maior pechincha no mercado internacional. E quem paga por isso? Nós, os novos BBBs: os babacas balançando bandeiras, sejam elas verde e amarelas ou vermelhas. 
A moeda é o suor e a fome.
Ah, Robespierre! Por que a sua lembrança neste momento não me assombra? 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Finalmente vedo l'acrostico della nostra storia...
E quando il sesso per il sesso non è più il pretesto? 
E quando il sesso va decisamente oltre la carne? 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Forse

forse è innamorato di un'altra
forse è stanco di me
forse non sarò più attraente
forse non lo eccito più
forse l'amore è finito
forse non è mai stato amore
forse devo ammettere
che non si tratta più di "forse"

ma come il "forse" insiste ancora...

forse non è il piccolo amore degli esseri umani
forse è l'amore più grande
che elimina tutti i "forsi"

sábado, 3 de fevereiro de 2018

sábado, 27 de janeiro de 2018

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Atrás da porta

(Chico Buarque e Francis Hime) 



Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei
Sobre teu corpo e duvidei

E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho

Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua

domingo, 26 de novembro de 2017

Pesadelo

(Nei Duclós)

Quando vier a guerra, e será breve
Veremos nosso bairro como a Síria
Fugiremos entre corpos empilhados
do quarto que perdeu quatro paredes

O barulho das balas, os pedágios
Onde o passe é tudo o que salvamos
Mais o terror de ver humanos
A criar atrocidades entre lobos
Cairão sobre nós junto ao remorso
De não termos levantado a tempo

O pesadelo é querer a paz
depois de mortos

(In: Palavra na pedra. Nei Duclós, 2017) 

sábado, 7 de outubro de 2017

Somos este mistério
este instante antes do broto
o lapso antes da palavra
bendito equívoco



quinta-feira, 25 de maio de 2017

Se fosse só isso

(Nei Duclós)

Se fosse só isso, o detalhe de uma cena
de um certo dia, tudo na superfície
e ficássemos quites com o desejo
e assim mesmo duvidaríamos
que existisse algo mais profundo
sabendo que é impossível viver
só com o que temos e devemos contar
com o impossível, nosso sonho

Mas o fôlego exige o esforço que justifica
sua exigência, a respiração mais longa
e o corpo que se estende por enigmas
além do inverno e do outono, quando o verão
renasce sem seguir o calendário e surge
a visão do amor, essa ilusão provisória
a nos fustigar as pernas cheias de preguiça
para sair do limite imposto pelo desperdício

Não é só isso e custo a entender os gestos
Nem desconfio porque ficas, insistes
depois que todos foram embora e me pergunto
até quando vai demorar esse rodeio, a dança
das cadeiras das palavras que me cercam
vindas da tua boca, aos goles de um mergulho
até cair a ficha e eu me demorar em teus olhos
e enxergar então o que há muito estava escrito

sexta-feira, 17 de março de 2017

Cu'mme



(Roberto Murolo e Mia Martini) 

Scinne cu 'mme
nfonno o mare a truva'
chillo ca nun tenimmo acca'
vieni cu mme
e accumincia a capi'
comme e' inutile sta' a suffri'
guarda stu mare
ca ci infonne e paure
sta cercanne e ce mbara'
ah comme se fa'
a da' turmiento all'anema
ca vo' vula'
si tu nun scinne a ffonne
nun o puo' sape'
no comme se fa'
adda piglia' sultanto
o mare ca ce sta'
eppoi lassa' stu core
sulo in miezz a via

saglie cu 'mme
e accumincia a canta'
insieme e note che l'aria da'
senza guarda'
tu continua a vula'
mientre o viento
ce porta la'
addo ce stanno
e parole chiu' belle
che te pigliano pe mbara'
ah comme se fa'
a da' turmiento all'anema
ca vo' vula'
si tu nun scinne a ffonne
nun o puo' sape'
no comme se fa'
adda piglia' sultanto
o mare ca ce sta'
eppoi lassa' stu core
sulo in miezz a via
ah comme se fa'
a da' turmiento all'anema
ca vo' vula'
si tu nun scinne a ffonne
nun o puo' sape'
no comme se fa'
adda piglia' sultanto
o mare ca ce sta'
eppoi lassa' stu core
sulo in miezz a via

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Leite derramado

é chegado um estranho tempo 
no novo velho mundo 
reerguem-se muros inconcebíveis 

náufrago do preconceito 
da improvável travessia num mar 
(que só não mata a sede de poder)
na areia
o pequeno corpo jaz

no seio da terra mãe de todos 
o amor empedra 
no seio da humanidade 
o sonho se esvai 

na silenciosa fonte, porém 
um fio de água brilha desde sempre 
a esperança nasce de uma lágrima de Deus

sábado, 29 de outubro de 2016

Abraço

(Nei Duclós)

Quero te dar um abraço modesto
do tamanho do mundo
pequeno em relação ao universo
enorme para nossos passos

Quero te dar um abraço profundo
que surpreenda as almas
apesar da idade
e que a gente morra quando se aperte 

(In: Outubro

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Cansaço

Não sei quando chegou este tempo...
Há um cansaço
Inesgotável
Quinquilharias de toda espécie me solicitam
É com profundo esforço que, para atendê-las, me arrasto

Estranho a insistência do dia
Em eclodir-se intempestivamente
De novo e de novo e de novo
O verde que morre e brota
O pássaro que anuncia o sol
Tudo tão efêmero
Tão real

Impassível apenas esta exaustão
A cada dia, uma queda de braço
Tenho vencido
Tenho morrido

Maravilhoso e eterno mistério
A mesma vida que faz bailar as estrelas
Pulsa neste capim
E eu?
Rebelo-me contra moinhos de vento
Que me roubam a única verdade
Estes minutos – estes aqui – e nada mais 

domingo, 8 de maio de 2016

Invisível


Clio Francesca Tricarico

ela revirava o lixo
a vergonha era minha

ofereci-lhe um pastel
existe miséria maior que sentir compaixão?

foi rapidamente servida
o embaraço era do pasteleiro  

mas...

era ali
ali mesmo
que ela devorava com os olhos
e comia com timidez

não tinha bons “modos”
só tinha o seu

meu olhar evitava seu rosto  
o asco era meu
de mim

certos instantes não passam

ela foi embora
não agradeceu
não devia  
a conta era minha

de resto, nada
nenhuma poesia

apenas estas pequenas letras
minúsculas como eu
pelo que vi ali
ali mesmo
em seu último olhar

inevitável 

(in Nosside 2015 - Antologia del XXXI Premio Mondiale di Poesia)