domingo, 30 de setembro de 2012

No mar das possibilidades, oscilamos entre a bonança e a tempestade numa probabilidade nunca justa. Vida é desequilíbrio. Ilusão acreditar em qualquer tipo de permanência, que se possa escapar do estar para o ser. Ser é estar. Estar é sempre aberto; por isso somos eternos. Somos eternamente estados em mutação: o que garante o "ser eterno" são as infinitas mortes de identidades finitas.
Perdida a pensar sobre a possibilidade de toda a existência,
dou-me conta de que tudo o que eu quero agora é um café. 
Bem brasileiro, puro, forte, encorpado. 
Que, ousado, me invada as narinas e me desperte o cérebro.
Que, quente, me desça goela abaixo e me acalme as entranhas.
Quanto ao céu e ao inferno, quem morrer, verá. 
(ou não...)
São só palavras.
E isso é tudo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

domingo, 9 de setembro de 2012

A manhã do amanhã

Era um domingo morno, quando eu e meu filho resolvemos surpreender a manhã.
À revelia da panela no fogo e do compromisso logo mais, não tivemos dúvida:
começamos a dançar um velho e bom jazz na cozinha.
Milagrosamente, nem o telefone, nem a campainha, nenhum celular tocou. Só o jazz tocava displicente, indiferente aos dançarinos improvisados.
Solenes, de pijamas, eu e meu rapaz, no auge dos seus vinte anos, adentramos a eternidade por quatro minutos dançando um jazz na cozinha...
Como se fosse óbvio inventar o inusitado.
Como se fosse fácil segurar o peito em fogos de artifício.
Altivos no átrio do castelo. Silenciosos na empatia do momento sublime.
Certos sabores nos fazem exalar asas de borboletas.
Dancei perpetuando cada passo do modo como queria lembrá-lo no futuro...
Dancei abraçada ao príncipe que parte para o mundo, intensificando a concretude do laço, sentindo, já com saudades, o último toque no bastão que passo adiante: momento em que fechamos os olhos, soltando sem querer largar, e então depositamos naquele instante tudo o que temos: nossa fé.
No meio da dança, olhei pra ele: tinha mais sol no seu olhar do que se pode encontrar no universo inteiro!
A vida estava ali, borbulhando diante de mim, naquele cavalheiro imponente, respeitoso e audaz: meu menino...
Senti o arfar do jovem destemido e vigoroso e lhe disse: “Respira...”
Respiramos juntos.
E então, ele me fez girar todas as piruetas: Fred Astaire e Ginger Rogers não fariam melhor! Girei, girei... todos os anos de escola, todos os tombos e risos, todos os sonhos libertos... Continuamos dançando até que o jazz foi ralentando seu destino e... acabou.
Entreolhamo-nos satisfeitos: ele saltitando ingenuidade, eu sorvendo cada gota daquele êxtase.
O silêncio se encheu de uma ternura azul até que começou a tocar faixa seguinte.
Ele foi jogar basquete.
Eu fui regar as plantas.
E o domingo seguiu em paz.
Às vezes, sinto saudade do simples
De quando só precisava de água e sabão
De quando tudo era sim ou não...

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Flutuando numa bola de sabão,
ansiosa por uma súbita rajada de vento...


Voa, voa, pássaro infinito
Pinta o céu com tuas asas 
Faz um pio de silêncio 
Que é pro mundo dormir em paz...

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ho scritto il tuo nome 
per vedere se succedeva qualcosa.
Nulla.
Solo una palpitazione 

ogni volta che leggo.

domingo, 2 de setembro de 2012

Vivemos continuamente a morte de cada instante
Vivemos continuamente a morte, a cada instante
Corrente alternada
Entre o esquecimento e o sim

Tão assim

Nunca me soube tão funda
tão sem fim
Tanta dor não tem cabimento
mas cabe em mim
Não sei por que ainda invento
um amor assim
Para o juízo, o maior benefício é a dúvida.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

"Quando vamos embora, todo nosso acervo, o que vimos, ouvimos e lemos, se esfarela. Seus pedaços grudam no teto do Tempo. São como gotas de mel que o fim do arco-íris libera ao sacudir o pote." (Nei Duclós)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

As sem-razões do amor

(Carlos Drummond de Andrade)

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Oggi

Oggi è il giorno
ci sei, senza sapere
ci sei, senza volere
ci sei

Oggi è il senso
dell'istante che non passerà mai
del segreto che guarda il vero
dell'eterno presente in me

Oggi
più che mai, oggi
la lacrima sorride nel buio
serena perché porta in se
il tempo in cui
ci sei

domingo, 29 de julho de 2012

Trégua

Quando o olhar atinge o alvo,
melhor não ver?
Quando o menor ruído assusta o mundo,
melhor calar?
Quando o mais discreto gesto perturba o sono,
melhor parar?
Quando o longínquo aceno rouba a cena,
melhor sumir?

Melhor ouvir
o coração calado em prece
Melhor sentir
a lâmina que corta a noite
Melhor deixar
o tempo tomar seu rumo
Melhor saber
a hora de baixar as velas

E esperar.

Às vezes, ceder é tomar fôlego
às vezes, é preciso ficar à deriva
às vezes, lutar é desatino
Às vezes...
mas, só às vezes,
é melhor fazer de conta
que a gente deixa pra lá

quinta-feira, 26 de julho de 2012


A vida tem passagens secretas.
Descobri quando, 
atrás da tua máscara, 
encontrei meu rosto...


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Insone



Cabeça no travesseiro: inútil
o sono ignora os olhos cansados
contagem regressiva pro infinito
vazio rasgado por escombros

Hora que não passa: pesadelo
hora de lembrar o que o dia não deixa
hora de esquecer o que a noite desperta
hora de rezar pra que o mundo acabe

Mas a vigília não desiste: insiste
O relógio rege o metrônomo austero
como a aporia que martela a ideia
como a tua imagem que não perdoa...

terça-feira, 24 de julho de 2012

"Eu não sentia nada. Só uma transformação pesável. 
Muita coisa importante falta nome." (Guimarães Rosa)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Passo a noite te procurando em meus rascunhos,
mas sempre apareces no verso ainda não escrito...