quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

BBB


Quer viver a verdadeira emoção de um reality show? Pega o metrô em São Paulo, numa sexta-feira, às seis da tarde.

Quer observar o comportamento de pessoas enclausuradas? Já experimentou visitar uma penitenciária?

Quer aprender a lidar com situações difíceis de convívio? Desliga a droga da TV e tenta travar um diálogo, mesmo que banal, com essa criatura que está aí ao seu lado, no sofá.

Quer entender quais são os mecanismos de defesa do ser humano quando se encontra sob pressão, tentando vencer um desafio? Vá a uma entrevista de emprego, depois de estar um ano desempregado.

Quer sentir tristeza e desalento? Acredite: mais eficiente que ir para o paredão, em horário nobre, pode ser visitar um hospital de crianças com câncer em estado terminal, em qualquer horário.

Quer saber qual o limite, o que leva uma pessoa ao desespero? Ao invés de verificar isso observando as reações de alguém que foi injustiçado e expulso da "casa", experimente dar uma olhadinha em algumas fotos da Somália... apenas observe o olhar das crianças.

Quer saber a que ponto chega a estupidez humana? Basta demorar cinco segundos parado diante do farol que acaba de abrir... você pode ficar surpreso com as manifestações de tolerância e meiguice.

Quer saber o quanto alguém pode ser malicioso, maledicente, mentiroso, canalha, sem vergonha e corruptível? Tem visto o noticiário político?

Ah... OK. Tudo bem. O mundo não é feito só de desgraças e todos temos o direito de nos divertir; é verdade e eu concordo!

É que divertimento, pra mim, é outra coisa... 

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pagode Jazz Sardinha's Club

Despejo


Pensei que ia explodir em constelação na Via Láctea, mas tinha cheiro de outono. 


Pensei exultante que tinha encontrado o pote de ouro no final do arco-íris; mas quando olhei no verso era made in China.


Pensei que o teu discurso me traria a boa nova, mas não passava de Ctrl-V.


Pensei que o mundo me causaria o habitual espanto, mas ele me espantou sem nenhuma novidade.


Pensei que cansaria de respirar tanto mofo, mas senti cheiro de café e desisti.


Pensei que trairias a minha devoção, mas não fizeste nem isso.


Pensei que o tempo me desse uma trégua, mas a bandeira branca cegou meu destino.


Pensei que talvez fosse possível mais um instante e saí pela casa à procura de sussurros.


Pensei que a faísca surgisse desse espasmo, mas o nunca se abriu na minha frente.


Pensei que ia morrer de amor e morri.


Então pensei que sentia... e deixei de pensar.

Inflexão inversa


As pessoas podiam ser diferentes...
Aliás, elas são: são diferentes do que deveriam ser.
Mas ninguém quer dever nada e isso se deve a todos quererem ser do jeito que são.
Dever não é querer e querer é bem melhor que dever.
Então as pessoas estão certas em não querer ser o que elas deveriam ser, mas sim em querer ser o que elas podem ser: 
diferentes do que são.

domingo, 8 de janeiro de 2012

A prova da universalidade

Estupefata com a prova da universalidade: diante de certos fatos, constatamos que merda é merda sob todos os pontos de vista.

Barulho

Inútil querer falar mais alto quando tem muito barulho; e se tem muito barulho, melhor ouvir o silêncio.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Beethoven - Sonata ao Luar (Moonlight Sonata)

Bomba-relógio

(Nei Duclós)


O tempo é a preguiça do homem
a visão de um bocejo
a faísca, uma foice

Cruzamos a treva de olhar sonâmbulo
tomando o pulso
do ciclone

Emergimos na margem oposta
com as mãos pingando sangue

O tempo é a palavra coração

(do livro No mar, veremos, 2001)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Pascal e as razões do coração

(Blaise Pascal, Pensamentos, n. 277, 282 e 283 - tradução de Juvenal Savian Filho a partir da edição francesa de M. Brunschvigg, Paris: Georges Crès et Cie., pp. 120-123 /  Juvenal Savian Filho, Deus, Ensaiando Leituras, p. 88)

"O coração tem razões que a razão desconhece [...]. Conhecemos a verdade não apenas pela razão, mas também pelo coração. É dessa última forma que conhecemos os primeiros princípios, e é em vão que o raciocínio, não tendo nada que ver com isso, tenta combatê-los. [...] Essa impotência não deve servir senão para humilhar a razão, que pretendia julgar tudo. [...] O coração tem sua ordem; o espírito tem a sua, que funciona por princípio e demonstração; o coração tem outra. Não provamos que devemos ser amados expondo as causas do amor: isso seria ridículo."

O primeiro motor de Aristóteles não sabe da existência do mundo

(Juvenal Savian Filho, Deus, Ensaiando Leituras, p. 81)

"Aristóteles extrai algumas consequências de sua visão do primeiro motor: pensar o imperfeito é, de algum modo, contê-lo em si (sob forma de pensamento). Por isso, o primeiro motor não pode pensar o mundo; não pode sequer saber de sua existência, pois, se souber, conterá o imperfeito em si. Para Aristóteles, conter o imperfeito seria contraditório com a perfeição divina indicada no texto anterior. Por tudo isso, o primeiro motor ocupa-se de si mesmo, vive em um eterno gozo consigo mesmo, sendo pensamento de pensamento. Mas poderíamos objetar: como ele causa o movimento do universo? Aristóteles responde: o primeiro movente move como o amado move o amante, ou seja, por atração (cf. Metafísica L, 7, 1072b4). Com efeito, a pessoa amada não precisa saber da existência de alguém que a ama para atraí-lo. Essa metáfora ilustraria o modo como o primeiro motor, sem imaginar a existência do universo, causa o movimento que o caracteriza."

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Simulacro

A palavra não comporta simulacro: ou ela diz ou ela não diz. Mesmo a falácia diz. O silêncio é o não da palavra "...assim como um rosto, mesmo em repouso, mesmo morto, está sempre condenado a exprimir algo..." (Merleau-Ponty)
Assim a poesia, assim a carne, assim o amor.
A palavra que não diz não é, é nada.

Para os que ainda lavam as mãos...

Muito bem citado por meu querido Claudio Lequio:

“Fama di loro il mondo esser non lassa;
misericordia e giustizia li sdegna:
non ragioniam di lor, ma guarda e passa.”


(Divina Commedia di Dante – Inferno – Canto III – v.49-51)


“O mundo não lhes deixará fama;
misericórdia e justiça os desprezam;
não falemos deles; olha e passa.”

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

La Storia


(Eugenio Montale)
 
La storia non si snoda
come una catena
di anelli ininterrotta.
In ogni caso
molti anelli non tengono.
La storia non contiene
il prima e il dopo,
nulla che in lei borbotti
a lento fuoco.
La storia non è prodotta
da chi la pensa e neppure
da chi l'ignora. 
La storia non si fa strada, si ostina,
detesta il poco a poco, non procede
né recede, si sposta di binario
e la sua direzione
non è nell'orario.
La storia non giustifica
e non deplora,
la storia non è intrinseca
perché è fuori.
La storia non somministra carezze o colpi di frusta.
La storia non è magistra
di niente che ci riguardi. Accorgersene non serve
a farla più vera e più giusta.
 
La storia non è poi
la devastante ruspa che si dice.
Lascia sottopassaggi, cripte, buche
e nascondigli. C'è chi sopravvive.
La storia è anche benevola: distrugge
quanto più può: se esagerasse, certo
sarebbe meglio, ma la storia è a corto
di notizie, non compie tutte le sue vendette.
 
La storia gratta il fondo
come una rete a strascico
con qualche strappo e più di un pesce sfugge.
Qualche volta s'incontra l'ectoplasma
d'uno scampato e non sembra particolarmente felice.
Ignora di essere fuori, nessuno glien'ha parlato.
Gli altri, nel sacco, si credono
più liberi di lui.



A História

A história não se desenlaça
como uma corrente
de anéis ininterrupta.
De qualquer maneira
muitos anéis não resistem.
A história não contém
o antes e o depois,
nada que nela borbulhe
a fogo lento.
A história não é produzida
por quem a pensa e nem
por quem a ignora. 
A história não traça seu caminho, se obstina,
detesta o pouco a pouco, não avança,
nem retrocede, muda de binário
e a sua direção
não está no horário.
A história não justifica
e não deplora,
a história não é intrínseca
porque está fora.
A história não ministra carícias ou chibatadas.
A história não é “magistra”
de nada que nos interesse. 
Dar-se conta disso não adianta 
para fazê-la mais verdadeira e mais justa.

A história não é então
a devastadora escavadeira que se diz.
Deixa subpassagens, criptas, buracos
e esconderijos. Tem quem sobrevive.
A história é também benevolente: destrói
o mais que pode: se exagerasse, certo 
seria melhor, mas a história é limitada a notícias, 
não cumpre todas as suas vinganças.

A história arranha o fundo
como uma rede de arrastão
com algum rasgo e mais de um peixe escapa.
De vez em quando se encontra o ectoplasma
de um que escapou e não parece particularmente feliz.
Ignora que está fora, ninguém lhe contou.
Os outros, no saco, acreditam-se 
mais livres que ele.

(Eugenio Montale - Prêmio Nobel de Literatura em 1975)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Assim como na fé, existe alguma coisa na arte, que transmite e compartilha o mistério.

Anima

a essência respira
no corpo que anima
a essência respira
no corpo
que anima a essência
respira o corpo
que anima...

domingo, 1 de janeiro de 2012

No dia em que a arte não me salvar, terei a certeza de estar morta.
Um pouco mais de sobriedade.
Existe um mundo girando em sinergia enquanto você fica girando em falso...