quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Só o tempo pode revelar o mistério de certos encontros, mas não vivemos o suficiente...

Então, amamos...

Tango


O conflito é o laço
O embate, rude
A fuga, impossível
Agarro firme, aconchego tenso
Sinuosa aventura corpo adentro

A cilada é o olhar
Precisão ferina
Indomável golpe
Trilha fina e fugaz
Esculpida a pico pelo salto agulha

O segredo é o mote
O jogo é falso
A luta é real
Perfeita simbiose de corpos fantoches
Sutis tentáculos de espíritos inquietos

Seria fácil escapar do truque
Não fosse tua 
a mão que me venda os olhos...

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Deixem-me ir em paz
Não tentem cristalizar a minha forma
Tudo o que fui e o que eu seria


Deixem-me viver o sonho
de alcançar os confins do mundo
pulverizando o que em mim germinou tão fértil
a semente do que chamam Humanidade


Deixem-me.
Concedam-me por fim
a liberdade de não ser

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

estupidez, ignorância e vulgaridade:
a natureza não devia permitir uma combinação destas num único ser.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Roda Viva (Chico Buarque): um palíndromo...


Festival 1967: uma das eternidades


Roda Viva
(Chico Buarque)

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

domingo, 17 de novembro de 2013

Enigma

Não tenho mais idade pra viver o passado
Meus anos são mais velhos que eu
Salvar o futuro da certeza, é preciso
É muita crueldade morrer antes de mim
Na bola de cristal, vejo a menina me acenando
Cabelos soltos, sorriso franco
No olhar, apenas o enigma anunciando um prefácio...
Errou o artífice que tentou contar a história começando pelo início
Não existe o princípio do nada
Do nada, só conhecemos o fim
E o final é o meio da charada
Pra que lado a menina sorri
Tenho medo de mergulhar nesse mar de cinzas
e revirar esqueletos abandonados
Basta um mínimo olhar
pra que, nos porões, se crie o fantasma
do que nunca existiu

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Música é a mistura inefável de sons que escapam do paraíso quando um anjo esquece a porta aberta...
La Luna è tanto bella oggi 
sembra che sei qui con me...

domingo, 10 de novembro de 2013

sábado, 9 de novembro de 2013

O milagre da quarta-feira

Dizem que o tempo não para; não é verdade.
Alguém pode me dizer o que são as 14h30 de uma quarta-feira?
Precisamente nessa hora, o mundo estaciona.
Momento estático.
Universo suspenso.
A inércia se instala.
O ponteiro dos minutos nunca mais vai alcançar o 31.


No escritório, o funcionário se sente em meio a um imenso deserto. Céu limpo, sol escaldante. De um lado, areia; do outro, também. Nenhuma expectativa de que algo mude seu destino.

O caminhoneiro se arrasta pela estrada ansiando inutilmente o final do percurso; seu olhar se perde no horizonte de curvas e retas sem sentido. Velocidade constante. Som de motor.

Na construção, o cimento fica mais pesado, assim como o capacete. Andar acima ou abaixo, tanto faz: todo lugar é o mesmo. Parede, tijolo, andaime, tapume.

A hora do almoço já acabou no boteco. Barulho de pratos na pia. TV em qualquer canal. A mosca é a mesma de ontem; circula perdida no meio do bar. Afinal, são 14h30 de quarta.

A mesmice se agrava dentro do elevador: ninguém sobe, nem desce. Nesse horário? Pra quê?

A balconista já lixou as unhas e retocou o batom. A rádio repete a música e o café não espantou seu sono.

A sesta devia ser obrigatória às quartas-feiras.

Nada escapa desse buraco negro no meio da semana; nenhuma esperança acena para as extenuadas criaturas. Bem dizia a tirinha do Snoopy no fatídico dia: “Senhor, deixe-me morrer.” Não está especificado na tira, mas não resta dúvida que nesse exato momento eram 14h30.

Imagino os escravos do tempo, fazendo um esforço enorme nessa hora, para fazer a grande roda mover mais um segundo... um só! Pobres seres esgotados pelos séculos, que seriam bem mais leves, não fosse quarta, 14h30.

Enfim, dela ninguém escapa.

Mas eis que acontece o inexplicável: miraculosamente, depois de uma eternidade, quando menos se espera, não são mais 14h30. Passou-se um minuto, talvez dois! Com sorte, cinco!!! E então as pessoas voltam lentamente a acreditar na vida... Voltam a acreditar que as 15h00 chegarão... e que, assim como na última semana, o sábado e o domingo também chegarão!

E não se sabe bem, se por conta de tanta fé ou se por piedade divina, o universo se põe a girar. Ao menos até a próxima quarta-feira...

sábado, 19 de outubro de 2013

Vinícius cem anos... Vinícius eterno...



"Meu tempo é quando"
(Poética - Nova Iorque - 1966)



Eu sei que vou te amar / Soneto de Fidelidade




Eu sei que vou te amar

Eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida, eu vou te amar
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta tua ausência me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida



Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

i nostri pensieri non resistono
si incontrano in segreto tutto il tempo...

sábado, 10 de agosto de 2013

É preciso fincar esse punhal no tempo
antes que ele vire a página
de mais um ano sem volta

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Só Tinha De Ser Com Você

(Tom Jobim & Elis Regina)

Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=-tnilh5_Mas

Tom Jobim e Elis Regina - 1974 - Foto de Fernando Duarte
É,
Só eu sei
Quanto amor
Eu guardei
Sem saber
Que era só
Pra você.

É, só tinha de ser com você,
Havia de ser pra você,
Senão era mais uma dor,
Senão não seria o amor,
Aquele que a gente não vê,
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você.
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você.

É, você que é feito de azul,
Me deixa morar nesse azul,
Me deixa encontrar minha paz,
Você que é bonito demais,
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim.

É, você que é feito de azul,
Me deixa morar nesse azul,
Me deixa encontrar minha paz,
Você que é bonito demais,
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim.
Eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim.
Eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim.
Eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

L'ultimo addio non è stato detto
L'ultimo sguardo supplicava: ancora no
Le nostre mani sono state separate
contro la volontà di entrambi

Perdono.
Ho ripetuto mille volte
mentre tu sembravi dormire

Di niente ha servito il mio immenso no.
Inutile.
L'ora, l'unica definitiva, era quella.

Dieci anni fa, pà
dieci anni...

Ti amo.
Ripeterò per sempre...



***



O último adeus não foi dito
O último olhar suplicava: ainda não
Nossas mãos foram separadas
contra a vontade de ambos

Perdão.
Repeti mil vezes
enquanto você parecia dormir

De nada serviu o meu imenso não.
Inútil.
A hora, a única definitiva, era aquela.

Faz dez anos, pà
dez anos...

Eu te amo. 

Repetirei para sempre...

quel momento in cui non sappiamo
qual è la tua pelle
qual è la mia...

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Nasci nessa cidade, nesse bairro
A cada dia, mais barulho
Menos vizinhos, menos pipas
Só a madrugada me salva:
Ainda posso ouvir o trem ao longe
É meu cheiro no travesseiro...
se per un attimo io ti dimenticassi?
avrei bisogno di reinventare il mio mondo...
Não, eu não li... não vi
Não sei do que falam os eruditos
A mim, coube apenas sentir o cheiro de cada manhã 

e mudar o leme do dia...
É preciso estar ali a regar ervas daninhas
já que são todo o alimento que nos resta
quando abrimos mão do último sentimento:
a fé no olhar diante do espelho

Estamos cansados

(Nei Duclós)

Estamos cansados
dos papos nos bares
dos encontros sem graça
das confissões em voz baixa
dos cumprimentos adequados
dos sorrisos forçados
da nossa cidade
das mesmas praças

Em grupo olhamos para todos os lados
para não nos enfrentar de cara

Esperamos com a boca amarga
a doce explosão dos ares
a vinda esperada do rei
o assassinato
o definitivo fim da farsa

Sou culpado pois não finco tua carne
com agulhas de fino aço
nem te arranco um filho
nem tento suicídio
nem faço um carnaval de fogo

O silêncio
cheio de tédio e segredo
sopra diariamente
e nos seca a garganta

(Do livro Outubro, 1975)

domingo, 28 de julho de 2013

Escrever é abrir um corte na carne e expor entranhas...
A palavra sangra e não se estanca
Jorra até o fim
E quando acaba, não morre
Mata.

sábado, 27 de julho de 2013

so quando sparisci:
apro la finestra
ed il mondo è solo silenzio e ombra

domingo, 21 de julho de 2013

A obsessão de Adão

(título emprestado da bela obra de Enzo Truppo)

L’Ossessione Di Adamo (Enzo Truppo)

Tormento
labirinto espiral 
dúvida proibida
fome insaciável
carne viva

Ímpeto
sopro fecundo
semente vermelha
mordida fatal
abissal mergulho 

Luz
desejo divino
pulso exposto
verbo impune
humano vício

segunda-feira, 15 de julho de 2013

quinta-feira, 11 de julho de 2013

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Inteligência me dá tesão.
Raciocínio ágil e com complexidade de ideias é orgástico.
Se agregar beleza artística então...
orgasmos múltiplos
em ondas
siderais...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Busco a palavra que inventa este dia pra que ele exista
enquanto, de qualquer maneira, ele se impõe assim
sem sentido...

sexta-feira, 28 de junho de 2013

invento esse amor todo dia
às vezes, cansa e desisto
então, morro um pouco
e aos poucos
morro um dia
"Quase foi-se o dia e nem lembrei que estavas longe. 
Levaste a luz contigo, memória viva.
O mundo recuperou o tom cinza do tempo
em que não te conhecia."
(Nei Duclós)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

S’amor non è

(Se amor não é - tradução abaixo)

Francesco Petrarca

S' amor non è, che dunque è quel ch' io sento?
Ma s'egli è amor, per Dio, che cosa e quale?
Se buona, ond è effetto aspro mortale?
Se ria, ond' è si dolce ogni tormento?

S'a mia voglia ardo, ond' è 'I pianto e 'I lamento?
S'a mal mio grado, il lamentar che vale?
O viva morte, o dilettoso male,
Come puoi tanto in me s'io nol consento?

E s'io 'I consento, a gran torto mi doglio.
Fra sì contrari venti, in frale barca
Mi trovo in alto mar, senza governo,

Sí lieve di saber, d'error sí carca,
Ch' i i' medesmo non so quel ch' io mi voglio,
E tremo a mèzza state, ardendo il verno



Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que cousa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?

Se eu ardo por querer por que o lamento?
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.

E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.

É tão grave de error, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que eu anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.

(Tradução de Jamil Almansur Haddad)

domingo, 16 de junho de 2013

Arena de vidro

Imagem retirada do site http://www.brasildefato.com.br

Os heróis se insurgem sem líder
Entrelaçados por fios invisíveis
Desentocam velhos leões
Que, famintos, apresentam suas garras

Cicatrizes antigas se abrem
Nas ruas de sangue da história
Se erguem barricadas de flores
Contra os domadores da plebe

Vivem eles ainda no outrora
Antes mesmo da bateção de panelas
Quando o exílio era a misericórdia

Esquecem que os olhos de agora
Se espalham além dos confins
Das paredes de vidro da arena
Não conhecemos nossas superfícies, nossos relevos...
Somos um encontro de magmas
Por isso, essa confusão incandescente

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Miserável sina

Amo-o tanto
que o deixo ir
como se pudesse
orbitar sua aura
e viver assim
num vento em transe

Seria fácil
não fosse o cheiro
a exalar por dentro
o que me enlouquece
o homem forte
minha raiz em sangue

Farejo os cantos
miserável sina

busca em vão
na espiral de espelhos

nada é mais só
do que o esquecimento

O meu consolo
é seguir suas pistas
e vê-lo herói
conquistando o mundo
enquanto guardo
seu cansaço em mim

Amo-o tanto
que a dor sorri
mesmo caindo
nesse abismo insano
por viver a gana
desse amor sem fim

domingo, 9 de junho de 2013

Antecipo o instante um milhão de vezes sem alcançá-lo 
e quando ele me toma como uma onda, é impossível contê-lo...


domingo, 2 de junho de 2013

Incubus

Clio Francesca Tricarico

Me tolhe do meu sonho sem aviso 
diante do seu poder, me rendo 
silencioso em mim se infiltra inexorável
em torrente caudalosa 
de homem 
de verbo 
de gana 
de sede 
de mundo 
percorre minhas veias em lavas sórdidas 
me sorve, me devora, possuído 

Toma meu rumo, minha fala, minha agonia 
não sossega se não arranca o último grito 
não se sacia se não esgota todo o sumo 
de mulher 
de terra 
de canto 
de gozo 
de fundo 
exaurida, perco o passo
perco o verso 
ganho tudo 

Alucinada pelo torpor que me mistura 
entre tons audaciosos e sublimes 
em rodopios arrastada por seu ímpeto 
resta apenas o desejo da catarse: 
ser sua palavra
sua carne
seu expurgo 

Desesperada por não sair do seu domínio 
me deposita lentamente no meu tempo 
impregnada do seu ser fogo e vento 
tudo aquilo que incorpora e não diz

Sinto dentro 
o que rouba o fiato, a fala 
excesso que desatina
o que não está na palavra... ainda...

Medo.

(in Nosside 2012 - Antologia del XXVIII Premio Mondiale di Poesia)

sábado, 25 de maio de 2013

Enigma

Dalí - O enigma sem fim

Não tenho mais idade pra viver o passado
Meus anos são mais velhos que eu
Salvar o futuro da certeza, é preciso
É muita crueldade morrer antes de mim
Na bola de cristal, vejo a menina me acenando
Cabelos soltos, sorriso franco
No olhar, apenas o enigma anunciando um prefácio...
Errou o artífice que tentou contar a história começando pelo início
Não existe o princípio do nada
Do nada, só conhecemos o fim
E o final é o meio da charada
Pra que lado a menina sorri

sexta-feira, 3 de maio de 2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

I limoni

(Eugenio Montale)

Ascoltami, i poeti laureati
si muovono soltanto fra le piante
dai nomi poco usati: bossi ligustri o acanti.
Io, per me, amo le strade che riescono agli erbosi
fossi dove in pozzanghere
mezzo seccate agguantano i ragazzi
qualche sparuta anguilla:
le viuzze che seguono i ciglioni,
discendono tra i ciuffi delle canne
e mettono negli orti, tra gli alberi dei limoni.

Meglio se le gazzarre degli uccelli
si spengono inghiottite dall'azzurro:
più chiaro si ascolta il sussurro
dei rami amici nell'aria che quasi non si muove,
e i sensi di quest'odore
che non sa staccarsi da terra
e piove in petto una dolcezza inquieta.
Qui delle divertite passioni
per miracolo tace la guerra,
qui tocca anche a noi poveri la nostra parte di ricchezza
ed è l'odore dei limoni.

Vedi, in questi silenzi in cui le cose
s'abbandonano e sembrano vicine
a tradire il loro ultimo segreto,
talora ci si aspetta
di scoprire uno sbaglio di Natura,
il punto morto del mondo, l'anello che non tiene,
il filo da disbrogliare che finalmente ci metta
nel mezzo di una verità
Lo sguardo fruga d'intorno,
la mente indaga accorda disunisce
nel profumo che dilaga
quando il giorno più languisce.
Sono i silenzi in cui si vede
in ogni ombra umana che si allontana
qualche disturbata Divinità

Ma l'illusione manca e ci riporta il tempo
nelle città rumorose dove l'azzurro si mostra
soltanto a pezzi, in alto, tra le cimase.
La pioggia stanca la terra, di poi; s'affolta
il tedio dell'inverno sulle case,
la luce si fa avara - amara l'anima.
Quando un giorno da un malchiuso portone
tra gli alberi di una corte
ci si mostrano i gialli dei limoni;
e il gelo del cuore si sfa,
e in petto ci scrosciano
le loro canzoni
le trombe d'oro della solarità.


(in Ossi di seppia, 1925)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

terça-feira, 30 de abril de 2013

...as celas nunca tinham sido trancadas;
em cada uma delas, jazia um morto,
acorrentado em suas próprias crenças...

domingo, 28 de abril de 2013

Nell'abbraccio ci assorbiamo in silenzio...
è quando il mondo è in pace

domingo, 17 de março de 2013

Facciamo questo tuffo fuori del mondo
Fammi, per un'attimo, provare di nuovo il gusto dell'eternità
Solo tu puoi farmi uscire completamente dello spazio-tempo
e respirare...

terça-feira, 12 de março de 2013

Outro dia

Olhou para o colar de pérolas
sabia que era tarde
as contas se perderam
entre risos e escombros
ressaca de anos vadios
passagem de ida sem volta

Procurava no espelho
o brilho, o fogo nos olhos
reflexo de áureos tempos
pueril e frágil esperança
estrela da desventura
quimera de um dia de glória

À frente, a velha janela
moldura do mesmo cenário
o mundo girando insano
tentando alcançar o horizonte
buscando um futuro insólito

correndo atrás do próprio rabo

Acendeu mais um cigarro
era o último da noite
mais um gole, mais um trago
rotina de vaga-lume
festa de barbitúricos
dormir seria muita sorte

O dia arregaçava o quarto
a vida lhe ria com escárnio
fechou os olhos e implorou
por um trapo de misericórdia
mas a pena se renovava
renascia pra viver a morte



Como é duro
nascer
uma lágrima

quando
a alma seca

quinta-feira, 7 de março de 2013

Quando alcançaremos maturidade suficiente para deixar de acreditar que o mundo é dividido radicalmente em "vilões e mocinhos"? Claro, sem se esquecer que vilão é sempre o que se opõe ao que "EU" acho certo? Quando deixaremos de acreditar na existência de um grandíssimo "certo" que se opõe a um grandíssimo "errado"?
Partimos em defesa ferrenha deste ou daquele outro, como se pudéssemos eleger alguém que flutuasse acima da miséria humana.
Nada é mais pueril hoje que o debate entre esquerda e direita, quando os problemas de fundo, em ambos, é tão velho quanto à humanidade: "os de cima" e "os de baixo". Oposição concreta que beira cada vez mais o intolerável. 
O sistema está implodindo.
A revolução é outra.

terça-feira, 5 de março de 2013

sábado, 2 de março de 2013

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Poema mudo

Engana-se quem julga que poema
é palavra camuflada em fascínio
É nele que a palavra se desnuda
desmascarando o real equivocado

Quando se cala o poema, recolhido
o mundo atarantado entra em pânico
Ele sabe que por dentro do silêncio
se prepara o abalo inexorável

Não se deixe, assim, levar pelas palavras
que, tontas, não dizem o que sabemos
Pois de dentro d’alma irrompe o poema
que nos inventa muito antes que o digamos
Escrevo como se fosse simples
sentir o toque bem no centro
de onde não me alcanço

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Tra chi dice che tutto cambia

Marina Mariani *

Tra chi dice che tutto cambia

e chi dice che l'essenziale
non è mutabile, e mai
muterà,
il colloquio non è impossibile,
la discussione si può fare.

Bisogna solo lasciare a casa i fucili,
sedersi sul sedile di pietra
sotto l'albero di fico,
bere ogni tanto un bicchiere di vino,
distrarsi all'andirivieni
del cane bracco o pointer,
o al canto d'un uccello,
all'odore di mosto o di sterco
o di mentuccia.

Alla fine ci si saluterà
con una stretta di mano
(non è poi tanto grave,
il cimitero è piccolo e bianco
e intorno giocano i bambini).


* Marina Mariani, poetessa napoletana, ha studiato Fisica e Filosofia;
morta questa settimana a Roma

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Duvidar sempre, para manter a sanidade.
Acreditar uma só vez... para viver.
"Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos." (Victor Hugo)

domingo, 3 de fevereiro de 2013



Noite
Profunda noite
Quietude imersa no tempo
Uma única palavra atravessa a madrugada
Teu nome

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

era pior:
era uma dor sem gosto
eutanásia da aurora
aborto da saudade
estaca funda no peito
sufocando o grito

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

domingo, 27 de janeiro de 2013

Non so come scriverlo, perché non è una poesia: è un bacio...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

São Paulo

(Foto da Galeria de Brivilati)

São Paulo não demora, é
 todo dia. 
No farol, retoco o lápis;  
Rabo de olho, me dou conta: 
Pauliceia em pleno rush... deusa encalacrada

Teia de nervos, seiva eletrizante.  
Acordo em meio ao transe. 

Automática.  
Sempre alerta.
Toda misturada.

Respiro tua fumaça e suspiro...
Teus rangeres incessantes m
e garantem: 
Está tudo bem
Estou em casa

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Os intervalos sem você são eternidades de suspense. 
Fico surpresa ao descobrir 
quanto tempo consigo ficar sem respirar...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

"Insuportável quando te afastas. 
Abre o apetite de devorar distâncias." 
(Nei Duclós)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

"Não me lembro mais qual foi nosso começo.
Sei que não começamos pelo começo.
Já era amor antes de ser..." 
(Clarice Lispector)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Essere con te è provare l'eternità 
Quando non ci sei, tutti i secondi finiscono in se stessi...

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Poesia é uma criança, que senta aos pés da Memória para escutar o Tempo." (Nei Duclós)

Ópera-bufa


Entorno o cálice, sem medo
Teu veneno brinda a minha derrota
Já não nego o meu desejo
Resistir é falsa pantomima

Engulo o teu olhar altivo, ego em riste, que vitória!
Meu amor desmancha-se em acordes
Restos mortais da ópera-bufa
Que encenamos atrás dos palcos

Por caminhos dissonantes nos perdemos
Procuro o meu amor
Teu fantasma
Sem história

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Não há nada de amor no que escreveste para mim
Mas tento ler na mensagem
o que me dizem teus olhos
nas entrelinhas...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

"Antes de amar-te, amor, nada era meu [...] 
O mundo era do ar que esperava."
(Pablo Neruda)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Meia-noite.
O calendário vira mais uma página.
O universo segue seu curso sem se dar conta.
A humanidade fecha os olhos por um segundo, à espera de um milagre.
Eu não acreditaria em nada, se não sentisse um beijo em minh'alma...

domingo, 30 de dezembro de 2012

A porta



Fechada para balanço, olho para aquela porta que só vemos quando fechamos os olhos. Está cheia de pó. Faz muito tempo que não me visito. Fico ali, diante dela, indecisa quanto a abri-la; a decisão oscila entre a curiosidade e o medo. Não me lembro de quando foi a última vez que a abri... anos talvez? Mas o tempo da alma não está atrelado ao calendário e, portanto, sinto que faz algumas eternidades.
A curiosidade vence o medo e estendo a mão para a maçaneta; giro-a lentamente. A porta não se solta, está emperrada. Sei que para abri-la devo reunir todas as minhas forças e destravá-la junto com a minha mandíbula ao som de ranger de dentes. O que terei feito de mim?
A abertura é excruciante, o processo dói nas entranhas, nos ossos; lembro-me de que a dor é sempre um parto: ao final, sente-se o alívio, uma espécie de libertação pela missão cumprida. Então, evoco a deusa imaginária que me habita, respiro fundo e me puxo para fora. Entrar em mim é fazer com que eu saia. É provocar um novo big bang na minha história. É começar a chacoalhar meu esqueleto para espanar as suas teias. É recontar os fatos sob o novo prisma, o desta mulher que desconheço.
Imagens em flashes me ajudam a resgatar raízes. Algumas, podres, precisam ser podadas; outras, vigorosas, transmutam meu gene. Olho, maravilhada, para a transformação e, ao mesmo tempo, sinto pena da mulher que devo deixar morrer. Na verdade, da mulher que devo matar: suas raízes velhas obstruem caminhos, enroscam nos nervos, pesam nos ombros. É verdade que sem ela, eu nada seria. Também é verdade que ela sempre fará parte de mim, mas em miasmas... como todos os outros que me nutrem, miasmas do mundo, fantasmas de histórias que precisam ser relidas, reinventadas, renascidas.
Todo nascimento é uma morte. É a constante negação do mundo e, por isso mesmo, a chance de sua perpetuação (ahhh... filosofia!). É a abertura de uma porta para o desconhecido. É a ousadia de se atirar para a vida que virá a seguir. O pior apego que temos é aquele que sentimos por nós mesmos. Só posso sentir saudade daquilo que não vigora... 
Já que é assim, escancaro a porta! Liberto meus fantasmas, meus miasmas, para que sirvam de adubo à substância amorfa do mundo. Brado a minha vitória! Esvazio meus porões para finalmente sentir saudade de mim...  

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Mi sorprendi facendo quello che sarebbe normale,
come se ogni piccolo gesto non fosse tutto.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Meia-noite
Amores proibidos saem de mãos dadas
Só podem ser vistos pelo brilho da Lua
Que surge em cada íris
Nua

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pra sempre é um estado de espírito que, como tudo, passa. 
Passa a ser outro estado de espírito que pode ser... 
pra sempre...

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mordaça

Arranho o céu da boca, mas não solto
este ardor, este ranger de dentes
Escrúpulo se mantém com rédea curta:
mordaça contendo a fúria...

sábado, 24 de novembro de 2012

"...é o poder da linguagem que transmuta vivências em histórias." (Nei Duclós)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Amor sagrado

Amor Sacro e Amor Profano - Tiziano

De todos os meus profanos amores,
és o sagrado, o inconfesso
O que dita, a cada verso, 
o que hei de ser, 
sem que eu permita 

O consentimento é compulsório 
desde o pacto: 
o toque inesperado, 
involuntário, 
cegamente desejado 

Do encontro planejado pelo Acaso, 
fez-se a trama: 
cada instante costura 
um novo ponto em nossa carne 

O verbo nos mistura 
O tempo nos degusta 

Pobres amantes condenados! 
Buscamos extasiados saciar a nossa fome, 
a ânsia do próximo sabor inusitado: 
qual gosto nosso ainda não foi provado...

domingo, 18 de novembro de 2012

Único


Enrolo-me de novo em minhas cismas,
emaranhado de espinhos.
A cada movimento me firo,
sem saber se estou achando a saída
ou mergulhando mais fundo.

Encolho-me;
como se fosse possível
adentrar nas próprias estranhas.
Como se fosse plausível
rasgar passagens
que me levassem ao cerne de tudo.

Faço de conta que estou no colo
de alguém que me protege do frio,
que consiste nesse insuportável
reconhecer-se único no universo.
Ninguém sabe de mim.
Nem eu.

domingo, 4 de novembro de 2012

Di nuovo, notte
Chissà per quanto tempo ci sarà questa volta
Silenzio
Sento tutto
Nel buio, non si vede niente
Ma dentro, c’è luce
Forse sia tutto vero...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012







Hoje, as palavras não se aguentam 
rodopiam inquietas em cirandas 
se misturam ao sabor do voo livre 
só pra criar um verso 
que exploda em arco-íris

sábado, 27 de outubro de 2012

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Esfinge




Procura-me amanhã
quando a noite tiver virado a página
e a lápide já estiver escrita

Nem cem mil anos de areia cobrirão
essa vertente que transborda, incessante,
a solidão do mar aberto no meu peito

Os ecos do teu nome se perderam no abandono
Meu destino é caçá-los para ouvir a tua ausência
e, do som desse vazio, moldar a tua esfinge


Ela será meu norte na minha cabeceira...

Frammenti atemporali

La sua mano teneva un mistero
svelato solo nel mio collo
I suoi effetti sono stati soltanto l'inizio
di un desiderio senza fine...

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

domingo, 21 de outubro de 2012

Não passou

(Carlos Drummond de Andrade)

Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão - a tua mão, nossas mãos -
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Scrivo a te usando ogni parola del dizionario,
ad eccezione di una

Tutte le parole che scrivo significano esattamente quella che non dico

terça-feira, 9 de outubro de 2012

domingo, 7 de outubro de 2012

Saudade


Os balanços do dia e da vida
se encontram no final da tarde

Me esqueço.

Fico à mercê desse amor sem dono
andando descalço no tombadilho

Tento reter o último gosto
de deleite: a tua lembrança

Saudade.

A brisa da noite
traz teus ares do leste

Inspiro sorvendo mares
Suspiro exalando amores

Além do mar
está meu horizonte

Em ti,
o infinito

Epílogo


O vento desfolhou o livro de cabeceira 
e a história se perdeu no tempo. 
Em qualquer página extraviada, 
está o ponto de partida. 
Não importa a direção: 
o sentido nos pertence. 
O desfecho, não.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Outubro

Nei Duclós


Trago a nova: eu mudo
lento, e é tudo
Sinto ser assim
por estações: aos turnos

Posso voltar
ao ponto de partida
mas luto

Sei que vem outubro
Flores, fruto de seiva
romperão no mundo
(Trabalho duro:
sugar de pedras
rasgar os caules
colher ar puro)

Lento e bruto
eu mudo
Sei que vem
outubro