E o homem some na curva, deixando o traçado em aberto...
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Mordaça
Arranho o céu da boca, mas não solto
este ardor, este ranger de dentes
Escrúpulo se mantém com rédea curta:
mordaça contendo a fúria...
este ardor, este ranger de dentes
Escrúpulo se mantém com rédea curta:
mordaça contendo a fúria...
sábado, 24 de novembro de 2012
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Amor sagrado
![]() |
| Amor Sacro e Amor Profano - Tiziano |
De todos os meus profanos amores,
és o sagrado, o inconfesso
O que dita, a cada verso,
o que hei de ser,
sem que eu permita
O consentimento é compulsório
desde o pacto:
o toque inesperado,
involuntário,
cegamente desejado
Do encontro planejado pelo Acaso,
fez-se a trama:
cada instante costura
um novo ponto em nossa carne
O verbo nos mistura
O tempo nos degusta
Pobres amantes condenados!
Buscamos extasiados saciar a nossa fome,
a ânsia do próximo sabor inusitado:
qual gosto nosso ainda não foi provado...
domingo, 18 de novembro de 2012
Único
Enrolo-me de novo em minhas cismas,
emaranhado de espinhos.
A cada movimento me firo,
sem saber se estou achando a saída
ou mergulhando mais fundo.
Encolho-me;
como se fosse possível
adentrar nas próprias estranhas.
Como se fosse plausível
rasgar passagens
que me levassem ao cerne de tudo.
Faço de conta que estou no colo
de alguém que me protege do frio,
que consiste nesse insuportável
reconhecer-se único no universo.
Ninguém sabe de mim.
Nem eu.
domingo, 4 de novembro de 2012
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Esfinge
Procura-me amanhã
quando a noite tiver virado a página
e a lápide já estiver escrita
Nem cem mil anos de areia cobrirão
essa vertente que transborda, incessante,
a solidão do mar aberto no meu peito
Os ecos do teu nome se perderam no abandono
Meu destino é caçá-los para ouvir a tua ausência
e, do som desse vazio, moldar a tua esfinge
Ela será meu norte na minha cabeceira...
Frammenti atemporali
La sua mano teneva un mistero
svelato solo nel mio collo
I suoi effetti sono stati soltanto l'inizio
di un desiderio senza fine...
svelato solo nel mio collo
I suoi effetti sono stati soltanto l'inizio
di un desiderio senza fine...
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
domingo, 21 de outubro de 2012
Não passou
(Carlos Drummond de Andrade)
Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.
Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão - a tua mão, nossas mãos -
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?
Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.
Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.
Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão - a tua mão, nossas mãos -
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?
Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.
terça-feira, 16 de outubro de 2012
domingo, 7 de outubro de 2012
Saudade
se encontram no final da tarde
Me esqueço.
Fico à mercê desse amor sem dono
andando descalço no tombadilho
Tento reter o último gosto
de deleite: a tua lembrança
Saudade.
A brisa da noite
traz teus ares do leste
Inspiro sorvendo mares
Suspiro exalando amores
Além do mar
está meu horizonte
Em ti,
o infinito
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Outubro
Nei Duclós
Trago a nova: eu mudo
lento, e é tudo
Sinto ser assim
por estações: aos turnos
Posso voltar
ao ponto de partida
mas luto
Sei que vem outubro
Flores, fruto de seiva
romperão no mundo
(Trabalho duro:
sugar de pedras
rasgar os caules
colher ar puro)
Lento e bruto
eu mudo
Sei que vem
outubro
Trago a nova: eu mudo
lento, e é tudo
Sinto ser assim
por estações: aos turnos
Posso voltar
ao ponto de partida
mas luto
Sei que vem outubro
Flores, fruto de seiva
romperão no mundo
(Trabalho duro:
sugar de pedras
rasgar os caules
colher ar puro)
Lento e bruto
eu mudo
Sei que vem
outubro
domingo, 30 de setembro de 2012
No mar das possibilidades, oscilamos entre a bonança e a tempestade numa probabilidade nunca justa. Vida é desequilíbrio. Ilusão acreditar em qualquer tipo de permanência, que se possa escapar do estar para o ser. Ser é estar. Estar é sempre aberto; por isso somos eternos. Somos eternamente estados em mutação: o que garante o "ser eterno" são as infinitas mortes de identidades finitas.
Perdida a pensar sobre a possibilidade de toda a existência,
dou-me conta de que tudo o que eu quero agora é um café.
Bem brasileiro, puro, forte, encorpado.
Que, ousado, me invada as narinas e me desperte o cérebro.
Que, quente, me desça goela abaixo e me acalme as entranhas.
Quanto ao céu e ao inferno, quem morrer, verá.
(ou não...)
dou-me conta de que tudo o que eu quero agora é um café.
Bem brasileiro, puro, forte, encorpado.
Que, ousado, me invada as narinas e me desperte o cérebro.
Que, quente, me desça goela abaixo e me acalme as entranhas.
Quanto ao céu e ao inferno, quem morrer, verá.
(ou não...)
domingo, 9 de setembro de 2012
A manhã do amanhã
Era um domingo morno, quando eu e meu filho resolvemos surpreender a manhã.
À revelia da panela no fogo e do compromisso logo mais, não tivemos dúvida:
começamos a dançar um velho e bom jazz na cozinha.
Milagrosamente, nem o telefone, nem a campainha, nenhum celular tocou. Só o jazz tocava displicente, indiferente aos dançarinos improvisados.
Solenes, de pijamas, eu e meu rapaz, no auge dos seus vinte anos, adentramos a eternidade por quatro minutos dançando um jazz na cozinha...
Como se fosse óbvio inventar o inusitado.
Como se fosse fácil segurar o peito em fogos de artifício.
Altivos no átrio do castelo. Silenciosos na empatia do momento sublime.
Certos sabores nos fazem exalar asas de borboletas.
Dancei perpetuando cada passo do modo como queria lembrá-lo no futuro...
Dancei abraçada ao príncipe que parte para o mundo, intensificando a concretude do laço, sentindo, já com saudades, o último toque no bastão que passo adiante: momento em que fechamos os olhos, soltando sem querer largar, e então depositamos naquele instante tudo o que temos: nossa fé.
No meio da dança, olhei pra ele: tinha mais sol no seu olhar do que se pode encontrar no universo inteiro!
A vida estava ali, borbulhando diante de mim, naquele cavalheiro imponente, respeitoso e audaz: meu menino...
Senti o arfar do jovem destemido e vigoroso e lhe disse: “Respira...”
Respiramos juntos.
E então, ele me fez girar todas as piruetas: Fred Astaire e Ginger Rogers não fariam melhor! Girei, girei... todos os anos de escola, todos os tombos e risos, todos os sonhos libertos... Continuamos dançando até que o jazz foi ralentando seu destino e... acabou.
Entreolhamo-nos satisfeitos: ele saltitando ingenuidade, eu sorvendo cada gota daquele êxtase.
O silêncio se encheu de uma ternura azul até que começou a tocar faixa seguinte.
Ele foi jogar basquete.
Eu fui regar as plantas.
E o domingo seguiu em paz.
À revelia da panela no fogo e do compromisso logo mais, não tivemos dúvida:
começamos a dançar um velho e bom jazz na cozinha.
Milagrosamente, nem o telefone, nem a campainha, nenhum celular tocou. Só o jazz tocava displicente, indiferente aos dançarinos improvisados.
Solenes, de pijamas, eu e meu rapaz, no auge dos seus vinte anos, adentramos a eternidade por quatro minutos dançando um jazz na cozinha...
Como se fosse óbvio inventar o inusitado.
Como se fosse fácil segurar o peito em fogos de artifício.
Altivos no átrio do castelo. Silenciosos na empatia do momento sublime.
Certos sabores nos fazem exalar asas de borboletas.
Dancei perpetuando cada passo do modo como queria lembrá-lo no futuro...
Dancei abraçada ao príncipe que parte para o mundo, intensificando a concretude do laço, sentindo, já com saudades, o último toque no bastão que passo adiante: momento em que fechamos os olhos, soltando sem querer largar, e então depositamos naquele instante tudo o que temos: nossa fé.
No meio da dança, olhei pra ele: tinha mais sol no seu olhar do que se pode encontrar no universo inteiro!
A vida estava ali, borbulhando diante de mim, naquele cavalheiro imponente, respeitoso e audaz: meu menino...
Senti o arfar do jovem destemido e vigoroso e lhe disse: “Respira...”
Respiramos juntos.
E então, ele me fez girar todas as piruetas: Fred Astaire e Ginger Rogers não fariam melhor! Girei, girei... todos os anos de escola, todos os tombos e risos, todos os sonhos libertos... Continuamos dançando até que o jazz foi ralentando seu destino e... acabou.
Entreolhamo-nos satisfeitos: ele saltitando ingenuidade, eu sorvendo cada gota daquele êxtase.
O silêncio se encheu de uma ternura azul até que começou a tocar faixa seguinte.
Ele foi jogar basquete.
Eu fui regar as plantas.
E o domingo seguiu em paz.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
domingo, 2 de setembro de 2012
Tão assim
Nunca me soube tão funda
tão sem fim
Tanta dor não tem cabimento
mas cabe em mim
Não sei por que ainda invento
um amor assim
tão sem fim
Tanta dor não tem cabimento
mas cabe em mim
Não sei por que ainda invento
um amor assim
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
As sem-razões do amor
(Carlos Drummond de Andrade)
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
domingo, 29 de julho de 2012
Trégua
Quando o olhar atinge o alvo,
melhor não ver?
Quando o menor ruído assusta o mundo,
melhor calar?
Quando o mais discreto gesto perturba o sono,
melhor parar?
Quando o longínquo aceno rouba a cena,
melhor sumir?
Melhor ouvir
o coração calado em prece
Melhor sentir
a lâmina que corta a noite
Melhor deixar
o tempo tomar seu rumo
Melhor saber
a hora de baixar as velas
E esperar.
Às vezes, ceder é tomar fôlego
às vezes, é preciso ficar à deriva
às vezes, lutar é desatino
Às vezes...
mas, só às vezes,
é melhor fazer de conta
que a gente deixa pra lá
melhor não ver?
Quando o menor ruído assusta o mundo,
melhor calar?
Quando o mais discreto gesto perturba o sono,
melhor parar?
Quando o longínquo aceno rouba a cena,
melhor sumir?
Melhor ouvir
o coração calado em prece
Melhor sentir
a lâmina que corta a noite
Melhor deixar
o tempo tomar seu rumo
Melhor saber
a hora de baixar as velas
E esperar.
Às vezes, ceder é tomar fôlego
às vezes, é preciso ficar à deriva
às vezes, lutar é desatino
Às vezes...
mas, só às vezes,
é melhor fazer de conta
que a gente deixa pra lá
quinta-feira, 26 de julho de 2012
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Insone
Cabeça no travesseiro: inútil
o sono ignora os olhos cansados
contagem regressiva pro infinito
vazio rasgado por escombros
Hora que não passa: pesadelo
hora de lembrar o que o dia não deixa
hora de esquecer o que a noite desperta
hora de rezar pra que o mundo acabe
Mas a vigília não desiste: insiste
O relógio rege o metrônomo austero
como a aporia que martela a ideia
como a tua imagem que não perdoa...
terça-feira, 24 de julho de 2012
sexta-feira, 20 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
segunda-feira, 16 de julho de 2012
![]() |
| Obra de Pino Daeni |
Saudade
acervo de esperas
O vento leva o cheiro
e traz o anseio
A noite pede o aconchego
que não veio
O tempo para no sonho
pra tomar fôlego
Mergulha no esquecimento
pra voltar límpido à tona
(sem nenhum remorso
por ser ingênuo)
Na aurora
silêncio
As águas na superfície
estão calmas
Mas submerso
o amor
espera o tempo
sábado, 14 de julho de 2012
domingo, 8 de julho de 2012
sábado, 7 de julho de 2012
sexta-feira, 6 de julho de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
domingo, 1 de julho de 2012
Per amore (con Zizi Possi)
Io conosco la tua strada
ogni passo che farai
Le tue ansie chiuse e i vuoti
sassi che allontanerai
Senza mai pensare che
come roccia
io ritorno in te...
Io conosco i tuoi respiri
tutto quello che non vuoi
Lo sai bene che non vivi
riconoscerlo non puoi
E sarebbe come se
questo cielo in fiamme
ricadesse in me,
come scena su un attore...
Per amore,
hai mai fatto niente
solo per amore?
Hai sfidato il vento e urlato mai?
Diviso il cuore stesso
pagato e riscomesso
dietro questa mania
che resta solo mia?
Per amore,
hai mai corso senza fiato?
Per amore,
perso e ricominciato?
E devi dirlo adesso
quanto di te ci hai messo
Quanto hai creduto tu
in questa bugia
E sarebbe come se
questo fiume in piena
risalisse a me,
come china al suo pittore...
Per amore,
hai mai speso tutto quanto la ragione?
Il tuo orgoglio fino al pianto?
Lo sai sta sera resto,
non ho nessun pretesto
Soltanto una mania
che resta forte e mia
dentro quest'anima che strappi via...
E te le dico adesso,
sincero con me stesso,
quanto mi costa non saperti mia...
E sarebbe come se
tutto questo mare
annegasse in me...
Io conosco i tuoi respiri
tutto quello che non vuoi
Lo sai bene che non vivi
riconoscerlo non puoi
E sarebbe come se
questo cielo in fiamme
ricadesse in me,
come scena su un attore...
Per amore,
hai mai fatto niente
solo per amore?
Hai sfidato il vento e urlato mai?
Diviso il cuore stesso
pagato e riscomesso
dietro questa mania
che resta solo mia?
Per amore,
hai mai corso senza fiato?
Per amore,
perso e ricominciato?
E devi dirlo adesso
quanto di te ci hai messo
Quanto hai creduto tu
in questa bugia
E sarebbe come se
questo fiume in piena
risalisse a me,
come china al suo pittore...
Per amore,
hai mai speso tutto quanto la ragione?
Il tuo orgoglio fino al pianto?
Lo sai sta sera resto,
non ho nessun pretesto
Soltanto una mania
che resta forte e mia
dentro quest'anima che strappi via...
E te le dico adesso,
sincero con me stesso,
quanto mi costa non saperti mia...
E sarebbe come se
tutto questo mare
annegasse in me...
sábado, 30 de junho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
terça-feira, 26 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
Seu olhar (Gilberto Gil)
Há no seu olhar
algo que me ilude
como o cintilar
da bola de gude
Parece conter
as nuvens do céu
as ondas brancas do mar
astro em miniatura
micro-estrutura estelar
Há no seu olhar
algo surpreendente
como o viajar
da estrela cadente
Sempre faz tremer
sempre faz pensar
nos abismos da ilusão
Quando, como e onde
vai parar meu coração?
Há no seu olhar
algo de saudade
de um tempo ou lugar
na eternidade
Eu quisera ter
tantos anos-luz
quantos fosse precisar
pra cruzar o túnel
do tempo do seu olhar
segunda-feira, 18 de junho de 2012
sábado, 16 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
"Não é falta de tempo.
Amor é a eternidade do encontro."
(do poema Serena de Nei Duclós)
http://outubro.blogspot.com.br/2012/03/serena.html
(do poema Serena de Nei Duclós)
http://outubro.blogspot.com.br/2012/03/serena.html
quarta-feira, 13 de junho de 2012
sábado, 9 de junho de 2012
Não me conformo quando alguém me exprime tão francamente em minúcias tão humanas... :)
"Não sou invasivo. Mas não caia na asneira de acenar de sua gruta se não quiser que eu chegue."
"Achas que sou feito de algum material sem sentido. Não imaginas o sangue que tenho para inventar o amor que jogas no lixo."
"Enquanto me comporto vejo como se passam contigo. Deveria desistir mas me contrario. Vou bater na cara de todos esses cretinos."
(Trechos retirados de Neblina de Nei Duclós)
Adoçando um pouco o sábado...

que o dia amanheceu
lá no mar alto da paixão,
dava prá ver o tempo ruir
Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim?
Enfim,
de tudo o que há na terra
não há nada em lugar nenhum
que vá crescer sem você chegar
Longe de ti, tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri...
Amar é um deserto e seus temores
Vida que vai na sela dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor...
Vem me fazer feliz porque eu te amo
Você deságua em mim e eu oceano
E esqueço que amar
É quase uma dor...
Só sei viver
se for por você!
segunda-feira, 4 de junho de 2012
quinta-feira, 31 de maio de 2012
No meio da tarde
Cartório, banco, correio, farmácia.
Fila, fumaça, buzina, inferno.
Cansaço.
Café!!!
Entro numa dessas padarias high tech que povoaram maravilhosamente a Mooca e o Tatuapé nos últimos tempos.
No meio da tarde, no meio da semana, no meio da vida.
Só tem um banquinho vago no balcão entre dois senhores - é uma coisa muito ligeira, não quero ir pras mesinhas.
Sento-me no banco apressada; por quê? Ah sim... o curso no final da tarde, já está quase na hora.
O objetivo é o café expresso rápido no meio do alarido. Dois minutos de respiro e "via".
Os atendentes estão ocupados; olho pra TV sem nada ver.
Enfim, um dos balconistas se aproxima; percebo que o senhor à minha esquerda ainda não foi atendido. O balconista se dirige a mim e ao senhor sem saber quem atender primeiro. Faço menção para atender primeiro o senhor e, então, olho para ele.
É um senhor distinto. Muito distinto.
Calça clara de linho, camisa leve bem passada, boina discreta confortavelmente acomodada nos macios cabelos brancos.
Pele e olhos claros.
Barba e unhas bem feitas.
Relógio de pulso clássico.
Postura ereta.
Expressão cordial e serena.
(Tenho curiosidade de sentir se usa algum perfume.)
- Boa tarde, diz ao balconista.
- O que o senhor vai querer?
- Uma média e um pão com manteiga, por favor.
Claro: o que mais poderia ser?
- Na chapa?
Claro que não.
Fico incomodada, pois só consigo observá-lo pelo canto do olho e, de repente, quero ver cada detalhe.
Amplio meu campo sensorial.
Como som ambiente, o tilintar de louças, o burburinho da gente...
Palmeiras, Corínthians, Santos...
Percebo então, que ao meu lado direito, outro senhor também está usando boina e lê um jornal; e na mesma direção, na mesinha um pouco atrás, dois senhores sentados, um de frente para o outro, conversam calmamente: o de frente pra mim também usa boina (!), o de costas, não. Puxa, que festival de boinas e de senhores com ares de outros ares!
Devagarinho, vou mergulhando (ou será que sou tragada?) por essa atmosfera; não sem a interferência, por vezes cretina, da minha mente metida a hiperativa.
Paro pra observar os dois na mesa; será que são gays?
O de boina olha pra mim.
Não; não são. No cruzar de olhares, me senti de espartilho.
Viro imediatamente a cabeça pro outro lado, meio empertigada.
A média do senhor distinto chegou. Ele aguarda o pão com manteiga olhando para a direção da TV; seu olhar atravessa a TV, a parede, a padaria... vai pra muito além desta tarde. Sigo o seu olhar e, por um instante, sinto vergonha dentro do meu jeans. Aquele olhar me faz ajeitar os saiotes antes de sair, sem esquecer de pegar a sombrinha pra proteger o rosto do sol primaveril.
- E a senhora, vai querer o quê?
Quase peço o mesmo, mas...
- Um suco de melão.
Por que eu pedi um suco de melão?
O que eu quero mesmo é continuar naquele tempo.
Ouço a folha do jornal sendo virada. As novas no velho papel...
E... NOMES!!! Sim, ouço nomes! Todos se conhecem e se chamam pelos nomes! Cumprimentam-se com sorrisos afáveis e sinceros.
Chega o pão com manteiga que é saboreado com toda a delicadeza que requer um ritual.
E, ao invés de engolir o suco num só gole, me pego bebericando-o lenta e calmamente, preocupada com meus gestos: precisam ser finos pra pertencer a esta aura de Renoir. Qualquer movimento brusco pode quebrar o encanto.
O tempo.
Por quanto tempo fiquei naquele tempo?
O suficiente pra me lembrar que tinha mesmo de ir embora: o curso, o e-mail, o compromisso, a vida.
O suco acabou; levanto-me pra sair.
Ainda posso ouvir o farfalhar dos meus saiotes enquanto caminho como uma verdadeira dama em direção ao caixa. Antes de cruzar o portal pro mundo lá fora, lanço um último olhar para os cavalheiros; o da mesa me saúda polidamente: leva a mão à boina, fazendo a discreta reverência. Sorri e fiz um pedido silencioso:
Por favor, não morram jamais.
Fila, fumaça, buzina, inferno.
Cansaço.
Café!!!
Entro numa dessas padarias high tech que povoaram maravilhosamente a Mooca e o Tatuapé nos últimos tempos.
No meio da tarde, no meio da semana, no meio da vida.
Só tem um banquinho vago no balcão entre dois senhores - é uma coisa muito ligeira, não quero ir pras mesinhas.
Sento-me no banco apressada; por quê? Ah sim... o curso no final da tarde, já está quase na hora.
O objetivo é o café expresso rápido no meio do alarido. Dois minutos de respiro e "via".
Os atendentes estão ocupados; olho pra TV sem nada ver.
Enfim, um dos balconistas se aproxima; percebo que o senhor à minha esquerda ainda não foi atendido. O balconista se dirige a mim e ao senhor sem saber quem atender primeiro. Faço menção para atender primeiro o senhor e, então, olho para ele.
É um senhor distinto. Muito distinto.
Calça clara de linho, camisa leve bem passada, boina discreta confortavelmente acomodada nos macios cabelos brancos.
Pele e olhos claros.
Barba e unhas bem feitas.
Relógio de pulso clássico.
Postura ereta.
Expressão cordial e serena.
(Tenho curiosidade de sentir se usa algum perfume.)
- Boa tarde, diz ao balconista.
- O que o senhor vai querer?
- Uma média e um pão com manteiga, por favor.
Claro: o que mais poderia ser?
- Na chapa?
Claro que não.
Fico incomodada, pois só consigo observá-lo pelo canto do olho e, de repente, quero ver cada detalhe.
Amplio meu campo sensorial.
Como som ambiente, o tilintar de louças, o burburinho da gente...
Palmeiras, Corínthians, Santos...
Percebo então, que ao meu lado direito, outro senhor também está usando boina e lê um jornal; e na mesma direção, na mesinha um pouco atrás, dois senhores sentados, um de frente para o outro, conversam calmamente: o de frente pra mim também usa boina (!), o de costas, não. Puxa, que festival de boinas e de senhores com ares de outros ares!
Devagarinho, vou mergulhando (ou será que sou tragada?) por essa atmosfera; não sem a interferência, por vezes cretina, da minha mente metida a hiperativa.
Paro pra observar os dois na mesa; será que são gays?
O de boina olha pra mim.
Não; não são. No cruzar de olhares, me senti de espartilho.
Viro imediatamente a cabeça pro outro lado, meio empertigada.
A média do senhor distinto chegou. Ele aguarda o pão com manteiga olhando para a direção da TV; seu olhar atravessa a TV, a parede, a padaria... vai pra muito além desta tarde. Sigo o seu olhar e, por um instante, sinto vergonha dentro do meu jeans. Aquele olhar me faz ajeitar os saiotes antes de sair, sem esquecer de pegar a sombrinha pra proteger o rosto do sol primaveril.
- E a senhora, vai querer o quê?
Quase peço o mesmo, mas...
- Um suco de melão.
Por que eu pedi um suco de melão?
O que eu quero mesmo é continuar naquele tempo.
Ouço a folha do jornal sendo virada. As novas no velho papel...
E... NOMES!!! Sim, ouço nomes! Todos se conhecem e se chamam pelos nomes! Cumprimentam-se com sorrisos afáveis e sinceros.
Chega o pão com manteiga que é saboreado com toda a delicadeza que requer um ritual.
E, ao invés de engolir o suco num só gole, me pego bebericando-o lenta e calmamente, preocupada com meus gestos: precisam ser finos pra pertencer a esta aura de Renoir. Qualquer movimento brusco pode quebrar o encanto.
O tempo.
Por quanto tempo fiquei naquele tempo?
O suficiente pra me lembrar que tinha mesmo de ir embora: o curso, o e-mail, o compromisso, a vida.
O suco acabou; levanto-me pra sair.
Ainda posso ouvir o farfalhar dos meus saiotes enquanto caminho como uma verdadeira dama em direção ao caixa. Antes de cruzar o portal pro mundo lá fora, lanço um último olhar para os cavalheiros; o da mesa me saúda polidamente: leva a mão à boina, fazendo a discreta reverência. Sorri e fiz um pedido silencioso:
Por favor, não morram jamais.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Amor é o que você sente, não o que você ama
(Nei Duclós)
Muda o alvo da fogueira, a essência mantém a chama
Quem te adora vai embora, o coração não reclama
porque a seta de Cupido já faz parte da tua trama
O amor não abandona, ao contrário do poema
prometido em noite alta, ilusão que se esparrama
só tua pulsão fica firme como saiote em arame
da equilibrista imodesta em seu abismo de manhas
No lugar de quem querias virá o encanto de novo
importa é que tenhas vivo o sopro do teu espanto
aprendeste com as brasas o que aquece sem feridas
A solidão não te pesa pois tens a força por perto
abres caminho onde passas com o dom da tua alegria
que o sentimento cultiva onde um dia foi deserto
O corpo como obra de arte: um nó de significações vivas
"O papel do romancista não é expor ideias ou mesmo analisar caracteres, mas apresentar um acontecimento inter-humano, fazê-lo amadurecer e eclodir sem comentário ideológico, a tal ponto que qualquer mudança na ordem da narrativa ou na escolha das perspectivas modificaria o sentido romanesco do acontecimento. Um romance, um poema, um quadro, uma peça musical são indivíduos, quer dizer, seres em que não se pode distinguir a expressão do expresso, cujo sentido só é acessível por um contato direto, e que irradiam sua significação sem abandonar seu lugar temporal e espacial. É nesse sentido que nosso corpo é comparável à obra de arte. Ele é um nó de significações vivas..."
(do livro Fenomenologia da percepção - Merleau-Ponty)
(do livro Fenomenologia da percepção - Merleau-Ponty)
domingo, 27 de maio de 2012
Arte: expressão de toda possibilidade... Liberdade.
"A universalidade da poesia reside no fato de que nos faz descobrir estados de ânimo que talvez naquele momento não vivamos, mas que são possíveis. Pois a arte como um todo desvela aspectos da realidade que nós não vivemos naquele momento, mas que podemos viver. Portanto, a arte não é apenas a expressão de um estado de ânimo subjetivo naquele momento, mas universaliza esse estado de alma."
(do livro Fenomenologia e Ciências Humanas - Angela Ales Bello)
(do livro Fenomenologia e Ciências Humanas - Angela Ales Bello)
sábado, 26 de maio de 2012
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Gabriela (Tom Jobim)
Vídeo de 1986 no Montreal Jazz Festival (Quebec, Canadá)![]() |
| Tom Jobim |
"...Chega mais perto, moço bonito
chega mais perto meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
mas com você ela é cheia de sol
Molha a tua boca na minha boca
a tua boca é meu doce é meu sal
Mas quem sou eu nesta vida tão louca?
Mais um palhaço no teu carnaval
Casa de sombra vida de monge
quanta cachaça na minha dor
Volta pra casa, fica comigo
vem que eu te espero tremendo de amor..."
quinta-feira, 24 de maio de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
É proibido dizer amor
Quando não souber o que te aflige, mas tiver certeza da tua angústia, não diga nada. Caminhe até a porta e atravesse o umbral que te separa do mundo. Endireite as costas e levante o queixo. Finja não ter medo que é pra afugentá-lo e sorria. As pessoas acreditam em sorrisos (mesmo falsos): é mais fácil fingir que não vê.
Quando pensar que não tem mais saída, olhe para o céu. Sim, ele é o limite e acaba no horizonte que você fechou. Tem uma mão estendida à tua frente, mas sequer erga o rosto para vê-la. A fraqueza que admitimos se torna real.
Quando sentir que tuas forças não movem mais um dedo, tente rezar. É um remédio que nem sempre alivia, mas geralmente transmuta a dor em ilusão. No fundo, você pressente que se existisse outro dia, ele também seria não.
Mas...
Quando amar profundamente, arrisque. Não porque pode valer a pena, mas por não ter escolha. Essa coragem abala, demove qualquer fé. Só não esqueça que a entrega é tua. Então, não importa o que aconteça, sinta calado: é proibido dizer amor nesse mundo sem perdão.
Quando pensar que não tem mais saída, olhe para o céu. Sim, ele é o limite e acaba no horizonte que você fechou. Tem uma mão estendida à tua frente, mas sequer erga o rosto para vê-la. A fraqueza que admitimos se torna real.
Quando sentir que tuas forças não movem mais um dedo, tente rezar. É um remédio que nem sempre alivia, mas geralmente transmuta a dor em ilusão. No fundo, você pressente que se existisse outro dia, ele também seria não.
Mas...
Quando amar profundamente, arrisque. Não porque pode valer a pena, mas por não ter escolha. Essa coragem abala, demove qualquer fé. Só não esqueça que a entrega é tua. Então, não importa o que aconteça, sinta calado: é proibido dizer amor nesse mundo sem perdão.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Mário Quintana (In: A Vaca e o Hipogrifo)
"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele!"
Simultaneidade
(Mário Quintana)
- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.
- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.
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