sábado, 9 de junho de 2012

Adoçando um pouco o sábado...



Assim
que o dia amanheceu
lá no mar alto da paixão,
dava prá ver o tempo ruir
Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim?

Enfim,
de tudo o que há na terra
não há nada em lugar nenhum
que vá crescer sem você chegar
Longe de ti, tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri...

Amar é um deserto e seus temores
Vida que vai na sela dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor...

Vem me fazer feliz porque eu te amo
Você deságua em mim e eu oceano
E esqueço que amar
É quase uma dor...

Só sei viver
se for por você!
"Quieto, coração, que já provaste a eternidade."
(do texto A trapaça do tempo de Nei Duclós)
Dor muda.
Medo.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

E através de olhos vazios
preenchia minha saudade tocando teu rastro
adivinhando teu contorno entre os traços
aspirando teu cheiro dentre as tintas
te enredando em meu sonho inacabado...

quinta-feira, 31 de maio de 2012

No meio da tarde

Cartório, banco, correio, farmácia.
Fila, fumaça, buzina, inferno.
Cansaço.
Café!!!
Entro numa dessas padarias high tech que povoaram maravilhosamente a Mooca e o Tatuapé nos últimos tempos.
No meio da tarde, no meio da semana, no meio da vida.
Só tem um banquinho vago no balcão entre dois senhores - é uma coisa muito ligeira, não quero ir pras mesinhas.
Sento-me no banco apressada; por quê? Ah sim... o curso no final da tarde, já está quase na hora.
O objetivo é o café expresso rápido no meio do alarido. Dois minutos de respiro e "via".
Os atendentes estão ocupados; olho pra TV sem nada 
ver
Enfim, um dos balconistas se aproxima; percebo que o senhor à minha esquerda ainda não foi atendido. O balconista se dirige a mim e ao senhor sem saber quem atender primeiro. Faço menção para atender primeiro o senhor e, então, olho para ele.
É um senhor distinto. Muito distinto.
Calça clara de linho, camisa leve bem passada, boina discreta confortavelmente acomodada nos macios cabelos brancos.
Pele e olhos claros.
Barba e unhas bem feitas.
Relógio de pulso clássico.
Postura ereta.
Expressão cordial e serena.
(Tenho curiosidade de sentir se usa algum perfume.)
- Boa tarde, diz ao balconista.
- O que o senhor vai querer?
- Uma média e um pão com manteiga, por favor.
Claro: o que mais poderia ser?
- Na chapa?
Claro que não.
Fico incomodada, pois só consigo observá-lo pelo canto do olho e, de repente, quero ver cada detalhe.
Amplio meu campo sensorial.
Como som ambiente, o tilintar de louças, o burburinho da gente...
Palmeiras, Corínthians, Santos...
Percebo então, que ao meu lado direito, outro senhor também está usando boina e lê um jornal; e na mesma direção, na mesinha um pouco atrás, dois senhores sentados, um de frente para o outro, conversam calmamente: o de frente pra mim também usa boina (!), o de costas, não. Puxa, que festival de boinas e de senhores com ares de outros ares!
Devagarinho, vou mergulhando (ou será que sou tragada?) por essa atmosfera; não sem a interferência, por vezes cretina, da minha mente metida a hiperativa.
Paro pra observar os dois na mesa; será que são gays?
O de boina olha pra mim.
Não; não são. No cruzar de olhares, me senti de espartilho.
Viro imediatamente a cabeça pro outro lado, meio empertigada. 

A média do senhor distinto chegou. Ele aguarda o pão com manteiga olhando para a direção da TV; seu olhar atravessa a TV, a parede, a padaria... vai pra muito além desta tarde. Sigo o seu olhar e, por um instante, sinto vergonha dentro do meu jeans. Aquele olhar me faz ajeitar os saiotes antes de sair, sem esquecer de pegar a sombrinha pra proteger o rosto do sol primaveril.
- E a senhora, vai querer o quê?
Quase peço o mesmo, mas...
- Um suco de melão.
Por que eu pedi um suco de melão?
O que eu quero mesmo é continuar naquele tempo.
Ouço a folha do jornal sendo virada. As novas no velho papel...
E... NOMES!!! Sim, ouço nomes! Todos se conhecem e se chamam pelos nomes! Cumprimentam-se com sorrisos afáveis e sinceros.
Chega o pão com manteiga que é saboreado com toda a delicadeza que requer um ritual.
E, ao invés de engolir o suco num só gole, me pego bebericando-o lenta e calmamente, preocupada com meus gestos: precisam ser finos pra pertencer a esta aura de Renoir. Qualquer movimento brusco pode quebrar o encanto.
O tempo.
Por quanto tempo fiquei naquele tempo?
O suficiente pra me lembrar que tinha mesmo de ir embora: o curso, o e-mail, o compromisso, a vida.
O suco acabou; levanto-me pra sair.
Ainda posso ouvir o farfalhar dos meus saiotes enquanto caminho como uma verdadeira dama em direção ao caixa. Antes de cruzar o portal pro mundo lá fora, lanço um último olhar para os cavalheiros; o da mesa me saúda polidamente: leva a mão à boina, fazendo 
a discreta reverência. Sorri e fiz um pedido silencioso: 
Por favor, não morram jamais.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Quando a dor é funda, a palavra estaca.
Um sabiá pousou na minha janela de manhã.
Tempo suspenso.
Uma lindeza de doer.
Quando saiu voando, 

levou meus sonhos em suas asas...
Chorando, eu sorri!


Nessuno sa, nessuno vede
ma nella notte c'è un attimo segreto
in cui le anime si intrecciano in silenzio...

Quando alguém extrair uma pepita da escura mina, não o inveje; reconheça seu mérito: a vitória é da humanidade.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Amor é o que você sente, não o que você ama

(Nei Duclós)


Amor é o que você sente, não o que você ama.
Muda o alvo da fogueira, a essência mantém a chama
Quem te adora vai embora, o coração não reclama
porque a seta de Cupido já faz parte da tua trama

O amor não abandona, ao contrário do poema
prometido em noite alta, ilusão que se esparrama
só tua pulsão fica firme como saiote em arame
da equilibrista imodesta em seu abismo de manhas

No lugar de quem querias virá o encanto de novo
importa é que tenhas vivo o sopro do teu espanto
aprendeste com as brasas o que aquece sem feridas

A solidão não te pesa pois tens a força por perto
abres caminho onde passas com o dom da tua alegria
que o sentimento cultiva onde um dia foi deserto

O corpo como obra de arte: um nó de significações vivas

"O papel do romancista não é expor ideias ou mesmo analisar caracteres, mas apresentar um acontecimento inter-humano, fazê-lo amadurecer e eclodir sem comentário ideológico, a tal ponto que qualquer mudança na ordem da narrativa ou na escolha das perspectivas modificaria o sentido romanesco do acontecimento. Um romance, um poema, um quadro, uma peça musical são indivíduos, quer dizer, seres em que não se pode distinguir a expressão do expresso, cujo sentido só é acessível por um contato direto, e que irradiam sua significação sem abandonar seu lugar temporal e espacial. É nesse sentido que nosso corpo é comparável à obra de arte. Ele é um nó de significações vivas..." 


(do livro Fenomenologia da percepção - Merleau-Ponty)

domingo, 27 de maio de 2012

Arte: expressão de toda possibilidade... Liberdade.

"A universalidade da poesia reside no fato de que nos faz descobrir estados de ânimo que talvez naquele momento não vivamos, mas que são possíveis. Pois a arte como um todo desvela aspectos da realidade que nós não vivemos naquele momento, mas que podemos viver. Portanto, a arte não é apenas a expressão de um estado de ânimo subjetivo naquele momento, mas universaliza esse estado de alma." 


(do livro Fenomenologia e Ciências HumanasAngela Ales Bello)

sábado, 26 de maio de 2012



Hoje, a Lua é aquele sorriso de estrela, marota menina.
Linda.
Sorri para ela, pensando em você.
Ela entendeu.
Vai te entregar meu sorriso num beijo quando passar na tua colina...
"Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando".
(Clarice Lispector)
Saio pra ver o que as pessoas estão olhando 
e só vejo umbigos...

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Gabriela (Tom Jobim)

Vídeo de 1986 no Montreal Jazz Festival (Quebec, Canadá)

Tom Jobim









 

"...Chega mais perto, moço bonito
chega mais perto meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
mas com você ela é cheia de sol
Molha a tua boca na minha boca
a tua boca é meu doce é meu sal

Mas quem sou eu nesta vida tão louca?
Mais um palhaço no teu carnaval
Casa de sombra vida de monge
quanta cachaça na minha dor
Volta pra casa, fica comigo
vem que eu te espero tremendo de amor..."

quinta-feira, 24 de maio de 2012

"Não quero que venhas, nem mesmo que fiques. 
Também que se mande ou que me ignore.
Quero que chore de amor impossível.
Só assim eu consigo saber que és minha."

(Do poema "Domador" de Nei Duclós -

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O pássaro noturno alça voo no escuro, 
guiado pelo cheiro das estrelas
No centro da nebulosa, ele mergulha fundo 
e colhe o néctar da meia noite...

terça-feira, 22 de maio de 2012

O personagem só vai se revelando para o autor à medida que é escrito. O escritor é médium do seu eu criativo. 

É proibido dizer amor

Quando não souber o que te aflige, mas tiver certeza da tua angústia, não diga nada. Caminhe até a porta e atravesse o umbral que te separa do mundo. Endireite as costas e levante o queixo. Finja não ter medo que é pra afugentá-lo e sorria. As pessoas acreditam em sorrisos (mesmo falsos): é mais fácil fingir que não vê.

Quando pensar que não tem mais saída, olhe para o céu. Sim, ele é o limite e acaba no horizonte que você fechou. Tem uma mão estendida à tua frente, mas sequer erga o rosto para vê-la. A fraqueza que admitimos se torna real.

Quando sentir que tuas forças não movem mais um dedo, tente rezar. É um remédio que nem sempre alivia, mas geralmente transmuta a dor em ilusão. No fundo, você pressente que se existisse outro dia, ele também seria não.

Mas...

Quando amar profundamente, arrisque. Não porque pode valer a pena, mas por não ter escolha. Essa coragem abala, demove qualquer fé. Só não esqueça que a entrega é tua. Então, não importa o que aconteça, sinta calado: é proibido dizer amor nesse mundo sem perdão.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

"Ficamos impregnados fisicamente no corpo astral de quem nos quer." (Nei Duclós)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Mário Quintana (In: A Vaca e o Hipogrifo)

"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele!"

Simultaneidade

(Mário Quintana)


- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.

domingo, 6 de maio de 2012

Tem palavra que não tem o "sentido" que soa... e destoa?
As dissonâncias da linguagem a contorcem mais no fundo...
desequilíbrio e beleza...
desafio e sublimação...

domingo, 29 de abril de 2012

Ho sceso milioni di scale

(Eugenio Montale)



Ho sceso, dandoti il braccio, almeno un milione di scale
e ora che non ci sei è il vuoto ad ogni gradino.
Anche così è stato breve il nostro lungo viaggio.
Il mio dura tuttora, né più mi occorrono
le coincidenze, le prenotazioni,
le trappole, gli scorni di chi crede
che la realtà sia quella che si vede.

Ho sceso milioni di scale dandoti il braccio
non già perché con quattr'occhi forse si vede di più.
Con te le ho scese perché sapevo che di noi due
le sole vere pupille, sebbene tanto offuscate,
erano le tue.

Verdade

Imagem de Think Different

Sei que tudo o que invento de ti é verdade: sinto.

Quando o belo amadurece


Foto de Erwin Olaf
Ver beleza somente na juventude, no vigor, no viço...  ou na "perfeição" de traços, na harmonia de  proporções esteticamente convencionadas a cada época, é uma crueldade ingênua que o ser humano faz consigo. A beleza está nos olhos de quem vê? O belo se mostra a quem sabe vê-lo. Não se trata de beleza "interior" tampouco. Feia talvez seja a decrepitude que não está necessariamente relacionada à elasticidade da pele. O corpo é a expressão; a decrepitude é um de seus "estados" de prostração em qualquer idade. Considerar belo, portanto, somente o estereótipo corporal vigente ou o auge da juventude é como considerar belo somente o sol ao meio-dia, quando ele exibe a sua plenitude de energia. Muito mais belo tende a ser, porém, o sol poente...

sábado, 28 de abril de 2012

Silêncio

Obra de Monet

É uma tristeza tão linda
a lágrima escorre o vazio
pra dentro do peito sem fundo
e leva o sonho perdido
por uma ciranda serena
qual pintura de Monet

Os olhos fechados mergulham
em névoas de uma sinfonia
embriagando a alma na brisa
do tempo em que o mundo vadio
não passava de um quintal sem dono
onde a gente brincava feliz

As janelas do pensamento
abriam-se efusivamente
pra varandas estendidas ao mar
O cheiro da maresia
com suas ondas repletas de histórias
inundava os espaços sem mais

Não volto pro mundo sem antes
beber desse breve momento
de gozo, de choro e de paz
No gesto que rompe o segundo
guardo a custo a miragem
do silêncio em suspenso no ar

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Abismo



Se você pensar em mim, eu sobrevivo
não é uma questão de fogo, mas de fôlego
Basta que se lembre de mim e eu aguento
não pela força, mas pelo estímulo

Se você lutar por mim, eu me entrego
não por me deixar levar, mas por fé no dorso
Basta que olhe para mim e eu flutuo
não pra ficar à toa, mas pra saltar no abismo

Um sussurro, um bilhete insosso,
qualquer gesto teu me salva
por um dia, por um segundo?

Em cada tempo que ressuscito,
basta um vestígio da tua existência 

pra minha escolha ter sentido

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Desabafo

Um dos ápices (sim, porque existem vários) da desgraça humana é o entrelaçamento da ignorância com a falta de consciência, o que equivale a dizer que o "ser" não tem consciência da própria ignorância. Aí, o(a) néscio(a) lê uma frase de um filósofo, um intelectual, um pensador qualquer e não só crê que a entendeu, como dela conclui que conhece todo o pensamento do autor. Com "absoluta propriedade", passa então a citar o gênio no meio das suas imbecilidades, como se realmente soubesse do que está falando.
E o pior: leva consigo a sua escória de seguidores esfuziados com o disparate! 
É preciso mesmo exercitar a paciência. 
MUITA PACIÊNCIA.
"No fim é só fantasia de um carnaval inexistente." (Nei Duclós)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Ver além do olhar.
Sentir além do perceber.
A nudez é sempre bela.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Pra não dizer que eu não falei da alegria...


Lembro-me daquela praia
e da primeira vez que chorei ao ter de me despedir do mar

Lembro-me também de meu pai pescando ao pôr-do-sol com seu chapéu
e de capturar aquele raro instante do seu semblante sereno e feliz

Lembro-me de minha mãe cantarolando cantiga de ninar enquanto passava roupa
e de quanto me sentia segura, implorando pra que aquele momento não acabasse nunca mais

Lembro-me de dormir no mesmo quarto com meu irmão, que nas minhas infindáveis noites insones dormia como um anjo 

e, ao olhá-lo, eu podia fazer de conta que não estava sozinha

Lembro-me da primeira vez que alguém confiável me ensinou a transgredir saudavelmente as regras
e de como foi delicioso me lambuzar toda comendo aquele doce com as mãos

Lembro-me da primeira vez que andei de bicicleta e não caí,
contrariando todas as probabilidades

Lembro-me do primeiro beijo que não foi apaixonado, mas foi melhor (foi roubado)
e desse susto que me fez sonhar por noites inteiras

Lembro-me daquele olhar que primeiro, não entendi, segundo, não acreditei,
mas que depois me convenceu que eu era a mulher mais linda do mundo

Lembro-me do primeiro sonho impossível realizado: o grande amor
o que me fez acreditar que tudo era possível

Lembro-me do primeiro salário que me trouxe a sensação de poder
e me deixou saborear por alguns instantes uma fantasia de liberdade

Lembro-me de Natais
e mesmo que Deus não exista, eu Lhe sou muito grata por nos dar esses pretextos

Lembro-me também de acreditar que o ano que apenas se iniciava era novo
e que então tudo seria diferente e melhor

Lembro-me de me culpar por não ser o que devia ser
e, de repente, me pegar sorrindo sozinha no meio da noite ao ajeitar os cobertores de três meninas que dormiam

Lembro-me que pari
e que, inacreditavelmente, ele nasceu e o mundo nunca mais foi o mesmo

Lembro-me de outra praia, do riso solto do filho de quatro anos a correr em círculos com seu pai em torno a nós, 

deixando-nos, eu e a avó, tontas de tanta paz

Lembro-me de que ele foi embora, me matando naquela noite
e que depois voltou de joelhos

Lembro-me de todos os “perdão” e “obrigado”
que nem sempre remetem a uma alegria, mas fazem uma deliciosa compressa quente no coração

Lembro-me de acreditar desconfiando
e de explodir de exaltação ao confirmar: “Eu sabia! Por que duvidei?”

Lembro-me de olhares silenciosos de aprovação,
mesmo que as palavras não dessem o braço a torcer

Lembro-me do dia que, surpreendendo a plateia de “experts”,
meu projeto de iniciante foi super elogiado (yyyessssss!)

Lembro que, quando já parecia impossível, passei no vestibular, tornei-me bacharel
e que depois, mais uma vez inexplicavelmente, ganhei uma bolsa de estudos e concluí o mestrado em filosofia

Lembro-me de uma incrível festa-surpresa de despedida
que incluiu algumas pessoas pra sempre no meu coração

Lembro-me de ombros amigos, de choros compartilhados, de gargalhadas intermináveis às vezes regadas a vinho ou cerveja
e de tanto amor recebido de um modo que jamais pensei merecer

Lembro-me de presentes que nunca poderei retribuir
mesmo porque amor não se retribui, apenas se sente

Lembro-me de pisar na Itália pela primeira vez
e de me deixar invadir por todos os cheiros tão meus, matando a saudade do que ainda não tinha vivido

Lembro-me de todas as vezes que me olhei em reflexos de janelas (de casas, trens, ônibus), observando as mudanças em meu rosto
e de todos os meus sorrisos sempre que reencontrei o mesmo brilho no olhar

Lembro-me de tantas coisas que já imaginei, de todos os futuros que já inventei
e me pego sorrindo com um “quem sabe?” entre os dentes 

Lembro-me de sentir uma profunda gratidão
e de chorar convulsivamente feliz

Lembro-me de alguém que me tocou a alma 
e eu nunca mais fui a mesma: finalmente, fui eu mesma 

Lembro-me  “daquele” olhar
Lembro-me  de abraços
Lembro-me  de músicas e de poesias
(essas coisas dispensam explicação)

E me lembrando de tudo isso e de mim,
desafio o tempo, apostando no próximo instante...

domingo, 22 de abril de 2012

Fragmento 220412

Mal entrevi a fresta do mundo quando abri os olhos.
Era claro demais para séculos de sombras.
Não era possível abarcar a imensidão que explodia pelo rasgo da lucidez num segundo.
Suguei aquele golpe de ar, soco rebatido no peito.
Era hora.
Retomei a força do susto e me lancei para o voo... sem volta.

sábado, 21 de abril de 2012

Inspiração pra fazer poesia? Nada...
Inspiração é preciso pra fazer Imposto de Renda, isso sim!

Liberdade

Já pensou? Nunca mais escrever a mesma palavra com o mesmo sentido?

domingo, 8 de abril de 2012

Bruma


Abre os olhos e me vê: nua 
alma exposta sem rodeios 
natureza de corpo inteiro 
manhã de palma aberta 

Na penumbra, uma pintura: 
tua vista meio turva 
toca a pele e eriça o pelo, 
chispa oculta que incendeia 

Entre o braço e a certeza 
do enlace sem limite 
uma doçura inunda o curso 

No estribilho deflagrado 
sorves lento a chama pura 
vertendo bruma em desmaio...

sábado, 7 de abril de 2012

L'amore è quando si ha una voglia incontrollabile di dire ciò che non ha bisogno di essere detto.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Demiurgo



O verso que canto só tu entendes, Dionísio 
é tua mão que o escreve enquanto sangro
Da carne do mundo, me trouxeste à tona
no teu âmago, me entranho

por teu fôlego, respiro

Não sei me dizer sem ti, demiurgo
teu olhar revela a minha fala
Teus sinais mapeiam meus estigmas
no teu sal, me ralo
no teu mel, me curo

Nada mais me resta que desaguar em ti, desatino
no teu ser, naufrago minhas dúvidas
Da tua vontade, brota meu desígnio
por tua dor, me rendo
por teu amor, eu vingo

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quando tudo volta ao normal, eu não volto.
Prefiro me exilar na possibilidade de ir adiante.

Por mais que isso doa. 
É uma questão de sobrevivência.

Desperdício

Tara sem atino
abraço sem enlace
beijo seco

Sonho no escuro
grito surdo
aborto do desejo

Amor de marionete
máscara transparente
reflexo trincado

Salto sabotado
trilha sem saída
fuga para o abismo

Impulso abandonado
tesouro esquecido
fingir que a dor não tem sentido

terça-feira, 3 de abril de 2012

Fragmento 030412


“Não queria pensar nisso agora; voltou para o cheiro de capim...”

Concentrou-se: cheiro de capim, cheiro de capim... inútil.
As buzinas, os faróis, o caos da hora do rush o tragavam de volta para aquele inferno e ele sentia dissolver-se na multidão. Parecia que pela primeira vez observava de verdade aquela miscelânea de gente. O que era aquilo? Frenesi de olhos ávidos de sabe-se lá o quê e cegos para o entorno. Ouvidos conectados em celulares ou mp3. Bocas com gosto de chiclete gasto falando com alguém que não está ali, como se falassem sozinhas. Narizes entupidos de cheiros cruzados. Contatos imediatos com a ausência: de tato. Sentidos embotados. Lembrou-se da canção do Chico... “Construção”: “seus olhos embotados de cimento e tráfego”. É, a canção ainda era válida, com a diferença que agora eram todos os sentidos que estavam embotados. Mas, pensando bem, ao menos tato ainda existia sim: a gente agora não pede mais licença; passa por cima. E então é possível sentir o “contato humano” atropelando calçada a fora.
Contato humano: o que era isso? Toque de corpos, pele? Lembrou-se da garota da última vez: pele branca, cabelo vermelho, beleza de revista, celular gravado pela manhã antes dela desaparecer... qual era o nome dela mesmo? Sentiu frio. O termômetro digital no meio da avenida marcava 26ºC; quente para as 19:30 h de um dia de outono.
Outono... a janela de casa, no cair da tarde, emoldurava a paisagem: as árvores se perpetuavam como estátuas nuas em contornos imprevisíveis; o vento esculpia imagens tão etéreas quanto efêmeras ao erguer as folhas do chão. O cheiro de feijão se infiltrava na fantasia do mundo fantasmagórico daquela hora outonal, aumentando o apetite e trazendo a sensação de realidade de que mais um dia terminaria em paz. Cheiro de feijão... Nunca mais sentiu "aquele" cheiro de feijão.
Ele se deu conta de que estava com fome, mas era melhor esquecer. Não ia jantar, não dava: tinha que esperar o pagamento. Ainda bem que faltava pouco: quatro dias. Começou a pensar no que iria jantar dali a quatro dias... humm... ao menos por um dia, ele iria comer gostoso de novo. Péssima ideia ter prestado atenção na fome; enquanto não se pensa nela, ela parece menor, um incômodo não identificado. Agora, não ia ser fácil despistar a danada. Pensando bem, achava que tudo era meio assim: o que não é bom, a gente ignora, faz de conta que não existe. Afinal, a gente inventa tudo, não é mesmo? Pra que inventar de sentir coisa ruim?
Mas aquela gente ali absurda, ele não tinha inventado não. E ele era completamente ignorado por aquela multidão. Sinal que, para eles, ele não devia ser boa coisa... Essa sensação não era boa. Pra que ficar pensando nisso? Era melhor fazer como eles: não ver ninguém. Pensando bem, ele sempre tinha feito isso... por que agora tinha cismado de VER todo mundo, tudo aquilo?
Sentiu a pressão do povo se aglomerando em volta, esperando o semáforo abrir para atravessar a avenida. O “homenzinho vermelho” está queimado, resta esperar acender o verde. O empurra-empurra é incômodo; as pessoas mal se olham e quando o fazem é com cara de saco cheio. De quê? Talvez estejam cansados e com fome como ele; talvez também sintam o frio da solidão. Talvez a cara de “poucos amigos” seja uma máscara que deva servir como armadura caso alguém resolva saber realmente “quem é você”.
E, realmente, quem era ele? Ele também fazia aquela cara de “poucos amigos”, embora tudo o que quisesse naquele momento era um prato sincero e um abraço quentinho. Foi então que ele a viu...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

domingo, 1 de abril de 2012

Abraço nu


Preciso de um canto só
no quarto escuro
no seio da noite
no veio da morte
que me acolha enquanto me dispo e renasço

Preciso de um abraço nu
de corpo inteiro
de aperto meigo
de braço forte
que me sustente enquanto choro e arregaço

Preciso de um olhar em mim
que me guarde
que me oriente
que me nutra
pra me salvar da realidade que me mata


Fragmentos 010412

Mentira em homenagem ao dia: cada um tem o que merece.

Mentira. É sempre tudo mentira quando convém.

Prendo o choro e solto o riso, lamentando o equívoco...

Sentimos duas dores misturadas como se fosse uma: 
a falta do ser amado e a falta de ser amado.

Fiz um pacto secreto com o espelho. Tá lendo o que? Isso é entre ele e eu.

Cansadíssima, mas a vida insiste...

Nossos corpos não são fronteiras, são pontes. 
(às vezes, realmente me confundo... alguém já disse isso? é tão meu que não sei!!!)

Loucura é o estado normal de quem se liberta das convenções.

Você passou tão perto e tão rápido... teu vento levantou o meu vestido.

Tinha duas escolhas; preferiu não escolher.

Antigamente eu esperava ansiosamente pelo domingo; hoje, ele me desespera.


Cruzada


Dois corpos - Escultura de Michael Wilkinson

Não sei andar sozinho por essas ruas
sei do perigo que nos rodeia pelos caminhos 
Não há sinal de sol mas tudo me acalma
no seu olhar

Não quero ter mais sangue morto nas veias
quero o abrigo do seu abraço que me incendeia
Não há sinal de cais mas tudo me acalma
no seu olhar

Você parece comigo
nenhum senhor te acompanha
você também se dá um beijo
dá abrigo

Flor nas janelas da casa
olho no seu inimigo
você também se dá um beijo
dá abrigo

Se dá um riso
dá um tiro

Não quero ter mais sangue morto nas veias
quero o abrigo do seu abraço que me incendeia
Não há sinal de paz mas tudo me acalma
no seu olhar

Você parece comigo
nenhum senhor te acompanha
você também se dá um beijo
dá abrigo

Flor nas janelas da casa
olho no seu inimigo
você também se dá um beijo
dá abrigo

Se dá um riso
dá um tiro

Você parece comigo
nenhum senhor te acompanha
você também se dá um beijo
dá abrigo 

Você parece comigo
nenhum senhor te acompanha
você também se dá um beijo
dá abrigo 

Você também se dá um beijo
dá abrigo

sexta-feira, 30 de março de 2012

Patapàn


Bellissima. Indimenticabile. E finora, insopportabile.


Patapàn (video)
(Claudio Baglioni)

ce l'ho ancora sulla pelle
quell'odore di colline
sono lucine o sono stelle
quelle cose dove la campagna ha fine
ti ricordi pa'
mi tiravi per la mano
sul tuo passo più costante
tu un gigante e io un nano
mentre davi un nome agli alberi e alle piante
e raccontavi fatti
e misteri di laggiù
così per lunghi tratti
e se non ce la faccio più
tu mi trovavi un legno
e io ci montavo su
con quel cavallo e un regno e uno schiocco e patapàn 

al galoppo e all'avventura
sotto a quel tuo naso grosso
messo come prua e non avevo mai paura
dentro la tua scia ti stavo sempre addosso 
e nella sera chiara
da lontano l'armonia
di un suono di fanfara
di un tam tam di prateria
e le tue braccia forti
che indicavano la via
ai miei ginocchi storti e agli occhi e patapàn 


ciao pa'
ma quante strade di sentieri bianchi
e quante ancora e ancora no non siamo stanchi
lo vedi come corro così veloce
dietro al tuo fischio e quella voce
se resti indietro aspetto 
sotto la croce e scoppia il petto e in coppia 
e andiamo avanti e patapàn

e sul ciglio di un burrone
tu facevi quella finta
di una spinta in giù e io ridevo col fiatone
e mi alzavi su nella camicia stinta 
e ti sentivo dire
di chi c'è e chi non c'è più
e non poter capire
perché non è come un tram
su cui chi si vuol bene
sale e viaggia e scende giù
ma tutti quanti assieme per sempre patapàn 

ciao pa'
così hai saltato giù e ora sei in volo
ti sei fermato un giorno e io corro solo
perché non m'hai aspettato e stai lontano
e non mi prendi più per la mano
che senza un legno adesso un po' più piano vado 
e spesso cado
ma andiamo avanti 

ciao pa'
ma dimmi dove è che stiamo andando
e questa vita dove mai ci sta portando
non era questo il mondo che volevamo
e non è il cielo che sognavamo
non è quel tempo, è adesso
in cui dobbiamo stare
e lo stesso andare
e andiamo avanti e patapàn
Não tenho capa: rasgo na primeira folha.
Quebra de sigilo é quando o segredo não cabe mais no cofre.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Estão todos juntos gritando por socorro; 
mas cada um só ouve seu próprio grito.
Bem no fundo, reencontro
a velha companheira:
a solidão.
Não estava com nenhuma saudade.
E o riso leve se condensa numa lágrima que desce a garganta.
Doendo.

terça-feira, 27 de março de 2012

Fragmento 270312

Vasculhava pela memória, recolhendo seus cacos, tentando reconstruir o quebra-cabeça.
A barba cinza de seu pai amornava a manhã, enquanto a lenha era talhada em pequenos tocos. Os olhos azuis e inabaláveis de sua mãe instauravam a concretude de mais um dia. O cheiro acolhedor de café, depois de invadir os quartos, se esparramava varanda a fora, inundando a plantação com o ar energizante de "bom dia". O burburinho preguiçoso de seus irmãos, a escola e a menina com cachos dourados impecavelmente assentados pela tiara de cetim, o Nico (seu melhor amigo até o ano seguinte), tudo isso lhe devolvia vagarosamente a respiração, o volitar de um tempo que lhe permitia ter a pseudossensação de alguma certeza.
Tudo era normal e era bom que fosse assim. Os dias apenas recomeçavam sempre do mesmo ponto: o cheiro de café. E terminavam sempre do mesmo jeito: sonhos imersos no cheiro de palha antes de dormir.
Cheiros... Qual era o cheiro dele? Engraçado como não identificamos nosso próprio cheiro.
Mas um dia ele iria se livrar daquele cheiro de capim; isso sim. Ele sempre ouvia alguém falar na escola e nas festas da cidade: “aqui, ninguém tem chance de ser alguém... nasce, vive e morre joão-ninguém... único jeito é tentar a vida na cidade grande: ali sim é que tudo acontece!”
Acontece... não queria pensar nisso agora. Voltou pro cheiro de capim... verde fresco, melhor ainda depois da chuva! Açoite de vento a estalar gotículas de água e de vida; verdes crinas reluzentes a vibrar o manto da terra. Essa ária verde inflava seus pulmões e ele flutuava por cima do matagal: era rei do céu e do sol! Nada o podia impedir de ser senhor e forasteiro no seu próprio reino. Forasteiro, pois sempre tinha algo novo de si mesmo ainda por desvendar e senhor do seu nariz, mesmo que ele ainda nem soubesse limpá-lo direito.
Seu nariz, agora eternamente vermelho em constante luta com o incansável lenço de papel: maldita rinite, mal da cidade grande...
NÃO!
Não queria pensar nisso agora; voltou pro cheiro de capim...

domingo, 25 de março de 2012





Quando os ventos nos retornam ecos diferentes, 


nossa voz sem sentido não reflete o que sente...

Hipocondria

Senécio - Paul Klee

Não pedia muito, só um pouco de sanidade
Tinha, numa mão, duas ou três incertezas
na outra, uma espera infinda

Não sabia o que menos importava:
se seu centro ou o universo
se sua vida ou sua escolha
se seu medo ou sua fantasia

No olhar, uma procura cega,
a pergunta da alma in natura:
qual o mal pra tanta cura?

segunda-feira, 19 de março de 2012

Parecia uma eternidade, mas o que é o tempo para quem esqueceu de si mesmo?

domingo, 18 de março de 2012

"Consoantes são o mundo físico, vogal é o sopro divino que insufla o barro." (Nei Duclós)

sexta-feira, 16 de março de 2012

À deriva


Flutuava no tempo como se não existisse.
Atordoado.
Não lembrava mais de si mesmo?
Aflito, fechou os olhos segurando-os com firmeza, se curvou pra dentro (o corpo todo, como quem mergulha nas próprias entranhas): tinha que tocar e firmar o epicentro de onde se propagava aquele turbilhão de rostos...
tantos rostos passando freneticamente pela sua mente, tão estranhos...
Qual era o dele?
Esforço inútil.

Só lhe restava abandonar-se mesmo...

A sensação de estar à deriva, liberdade que sempre sonhara, se transformava em pura náusea. 

Não tinha pouso.
Também não tinha medo, só insônia.
A angústia maior era não conseguir despertar dela.
Tanto fazia se era dia ou noite; tanto fazia se era dentro ou fora:
nada o salvaria daquele perdurar sem dono,
da condenação de ser invariavelmente morno,
da impotência de ser mero fantoche entregue à insensatez da rotina.

Devia ser outono.
Pensou em voltar pra marquise... era sempre a mesma?
(como se alguma coisa pudesse ser sempre a mesma)
A marquise era sempre a mesma não importava qual fosse.
Toda marquise era estranha e, portanto, era sempre igual.
A gente se acostuma com tudo na inexorável repetição: quando a rotina é se deparar sempre com coisas estranhas, nada mais espanta.

Sempre... sempre... soava como uma bigorna.
Sempre.
Tudo igual.

Que horas eram?
Tanto fazia.
As horas não contadas se abriam em imensos vazios por onde seu pensamento oscilava lentamente entre o sim e o não...
sim...
não...
sim...
não...
Tempo: pêndulo das incertezas.
A meia-noite tanto fazia como o meio-dia.
A meia vida tanto fazia como o meio lanche.

Pensando bem, tanto fazia também qual era o seu rosto entre tantos...
tão estranhos e, portanto, tão iguais.
É.
Ficou mais calmo.
Resolveu voltar pra marquise.
Já era hora.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Linda, Nua, Brilha a Lua



Hoje, ela não quer nem saber: 

o céu é só dela! 

Só resta ao universo deslumbrado consentir em uníssono que ela reine...

Vênus às avessas

Vênus de Botticelli
Não  sou a menina que te faz perder o juízo;
sou a chance que tens de escapar do teu destino.
Nem a beldade com quem sonhas acordado;
o que sou, na verdade, nem sonhas.

Também não sou a "santa" que te pôs no mundo;
bendita sou eu que te carrego bruto.
Nem a gueixa pra que te deleites;
e sim a chama que te despe a alma.

Não sou a princesa que acalentas;
sou a amazona que te atravessa o tino.
Nem a escrava que te beija os pés;
mas tua lágrima vertida em flor.

Não sou a rainha por quem morrerias;
te salvo por um triz da tua vida exangue.
Muito menos a deusa que tu adoras;
mas guerreira à espreita pra quem pedes arrego.

Não sou sex symbol, nem boneca de luxo;
te desejo pelo cheiro e pelo pulso.
Não adianta, não sou nada do que esperas:
só a surpresa no fim da festa.

A mulher que pediste a Deus? Não...
tu não merecerias tamanho castigo.


Enfim, pra ficar bem claro:


Não sou a dita, nem a pantera
não sou a outra, nem a patroa
nem mignon, nem bonitinha
nem linda, nem gostosinha

Não sou a dona da pensão, nem cortesã de mensalão
não sou matrona austera, nem companheira eterna
nem femme fatale, nem galinha pro teu bico
nem Angelina, nem Amélia, nem Pagu, nem mulher à toa

Sou só mulher e sou das boas.

Sou só assim...
e se me amas...

sou tua.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Sujeito é verbo

Retirado de www.meupapeldeparedegratis.net


Sujeito é verbo
palavra em transe
tempo liberto

fluxo que pulsa
o contínuo se
infinito reflexo
do escape de si

Desabafo do dia: Virtuose

Virtuose, segundo o Aurélio:
1. Músico de grande talento; virtuoso. 2. Toda pessoa que domina em alto grau a técnica de uma arte. 3. Pej. Aquele que tem, em arte, habilidade meramente malabarística, destituída de sentimento, probidade interpretativa etc.

Não gosto do sentido pejorativo.
Alguns conceitos não deveriam jamais ser banalizados; perdem seu sentido... é uma pena.
Virtuose, por exemplo, é uma palavra que deveria ser conservada; destinada somente a quem verdadeiramente a merece. Qual é o critério para seu uso? Talvez, o conhecimento "suficiente" para se ter o mínimo de discernimento. Quanto de conhecimento é necessário, o que podemos considerar como "suficiente"? Certo, não é tão simples de se estabelecer.
Mas hoje, parece que a falta de discernimento é tanta que quase TODOS se julgam gênios e, o pior: a maioria acredita.

Resta seguir na esperança de que a humanidade ainda consiga nos trazer mais surpresas que decepções.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Fragmentos 050312


Às vezes, um anjo me concede um milagre: então, num segundo, reconheço alguém que não conheço.

Pra ti, escreveria um romance; mas já conheces o final...

A vida do instante é escapar o tempo todo pra se fazer presente.

Te escuto em cada palavra que não te escrevo.

Antes de deitar te observo: pareces um anjo na noite a semear canduras nos sonhos da gente...

Villa-Lobos - Bachianas Brasileiras 4 - Parte 1

domingo, 4 de março de 2012

Jardim das Rosas

Quando a música é poesia que fala sem palavras e liberta o coração...



Tentas

Josh Holloway




Tentas 
esconder o fogo sob a pele 
o brilho atrás da retina 
o golpe que te fulmina 

Tentas 
driblar o gesto sem jeito 
fingir que não é contigo 
camuflar o riso incontido 

Tentas 
não deixar cair a máscara 
não entregar o que está explícito 
não cometer o ato ilícito 

Mas é tudo em vão 

Pois basta um olhar de esguelha 
um triscar de pelo 
um fiapo de cheiro 
e não resistes: 

me tentas

sábado, 3 de março de 2012

Fragmentos 030312


Segredo oculto não é pleonasmo, é situação: para ser segredo, ele tem que ter a possibilidade de ser revelado...

Tirei minha máscara de pessoa real; resolvi assumir a minha virtualidade.

De repente, me deparei com dois pontos: estranhamente, nada os explicava.

Não existe nenhuma cláusula contra a acentofobia?

Fiquei buscando coisas na memória, num tempo em que elas não existiam.

Existe alguma coisa mais sem sentido que uma palavra sem sentido?

Não tinha vergonha de ser feliz: ria sem nenhum dente na boca.

Se vazio não fosse nada, a gente não sentia.

Esse eu que não me responde, não sou eu.

Pensava nele de um jeito diferente... meio sem pensar.

Quando a gente pensa que acabou, vem o sol e nasce de novo. Incrível!